sábado, 1 de outubro de 2016

NÓS ERRAMOS (Frei Beto)

Continuo a fazer coro com o “Fora Temer” e a denunciar, aqui na Europa, onde me encontro a trabalho, a usurpação do vice de Dilma como golpe parlamentar. Porém, as forças políticas progressistas, que deram vitória ao PT em quatro eleições presidenciais, devem fazer autocrítica.

Não resta dúvida, exceto para o segmento míope da oposição, que os 13 anos do governo do PT foram os melhores de nossa história republicana. Não para o FMI, que mereceu cartão vermelho; não para os grandes corruptores, atingidos pela autonomia do Ministério Público e da Polícia Federal; nem para os interesses dos EUA, afetados por uma política externa independente; nem para os que defendem o financiamento de campanhas eleitorais por empresas e bancos; nem para os invasores de terras indígenas e quilombolas.

Os últimos 13 anos foram melhores para 45 milhões de brasileiros que, beneficiados pelos programas sociais, saíram da miséria; para quem recebe salário mínimo, anualmente corrigido acima da inflação; para os que tiveram acesso à universidade, graças ao sistema de cotas, ao ProUni e ao Fies; para o mercado interno, fortalecido pelo combate à inflação; para milhões de famílias beneficiadas pelo programas Luz para Todos e Minha Casa, Minha Vida; e para todos os pacientes atendidos pelo programa Mais Médicos.

No entanto, nós erramos. O golpe foi possível também devido aos nossos erros. Em 13 anos, não promovemos a alfabetização política da população. Não tratamos de organizar as bases populares. Não valorizamos os meios de comunicação que apoiavam o governo nem tomamos iniciativas eficazes para democratizar a mídia. Não adotamos uma política econômica voltada para o mercado interno.

Nos momentos de dificuldades, convocamos os incendiários para apagar o fogo, ou seja, economistas neoliberais que pensam pela cabeça dos rentistas. Não realizamos nenhuma reforma estrutural, como a agrária, a tributária e a previdenciária. Hoje, somos vítimas da omissão quanto à reforma política.

Em que baú envergonhado guardamos os autores que ensinam a analisar a realidade pela óptica libertadora dos oprimidos? Onde estão os núcleos de base, as comunidades populares, o senso crítico na arte e na fé?

Por que abandonamos as periferias; tratamos os movimentos sociais como menos importantes; e fechamos as escolas e os centros de formação de militantes?

Fomos contaminados pela direita. Aceitamos a adulação de seus empresários; usufruímos de suas mordomias; fizemos do poder um trampolim para a ascensão social.

Trocamos um projeto de Brasil por um projeto de poder. Ganhar eleições se tornou mais importante que promover mudanças através da mobilização dos movimentos sociais. Iludidos, acatamos uma concepção burguesa de Estado, como se ele não pudesse ser uma ferramenta em mãos das forças populares, e merecesse sempre ser aparelhado pela elite.

Agora chegou a fatura dos erros cometidos. Nas ruas do país, a reação ao golpe não teve força para evitá-lo.

Deixemos, porém, o pessimismo para dias melhores. É hora de fazer autocrítica na prática e organizar a esperança.

Frei Betto é escritor, autor do romance “Minas do ouro” (Rocco), entre outros livros.

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Crianças entendem mais de poesia do que os adultos

Estimular a leitura durante a infância pode render bons frutos no futuro

São Paulo, setembro de 2016 – A poesia é a forma de ler mais natural para a criança. Ao contrário do que nos parece, aqueles versos complicados que recorrem a metáforas e a rimas não são muito difíceis no entendimento infantil, pois é na infância que desenvolvemos hábitos e apetites. E, para ler e entender poesia, não é necessário nenhum pré-requisito, pelo contrário, quanto mais “puros” estivermos, melhor digerimos e aproveitamos o conteúdo. 

Em alguns casos, quando pais, professores ou intermediadores recorrem à poesia como um recurso didático, ela é isenta de toda sua carga artística, que é o cerne de sua criação e benefício. Lendo poesia desde cedo, desenvolve-se uma sensibilidade em aspectos da vida com um todo. A função do poema transcende sua intenção enquanto instrumento educativo. Sua carga semântica é influente na aquisição de comportamentos e significados na infância.

Muitas pessoas possuem dificuldade em ler poesia, e isso se dá principalmente pelo fato do poema ser, em grande parte das vezes, cheio de metáforas e subentendidos. Para que esse tipo de leitura possa ser efetiva, principalmente na infância, é preciso que se estejam claras algumas coisas. O poema é uma forma de comunicação, ele sempre nos passará uma mensagem, uma ideia ou ideal, e para entender é preciso estar aberto.

Por isso, é importante ensinar as crianças a lerem os poemas livres de intenção, apenas lendo. Não é preciso que se tire tudo de letra, no final das contas, tiramos um pouco de tudo o que lemos. Incentivar a criança a refletir e meditar sobre o que leu também ajuda na compreensão e estimula a criatividade, além de contextualizar e ambientar a obra. Por fim, a poesia tem sua origem na fala. Quando parecer difícil de entender – faça a leitura em voz alta. O significado pode estar na sua declamação, em algumas palavras que se destaquem.

Além de estimular a imaginação, a poesia é um recurso ideal para que a criança se familiarize com o vocabulário e melhore sua expressão oral; além de ser um meio de transmissão de valores, de estímulo da criatividade e veículo de reflexão. A partir de uma certa idade, conseguimos estimular o abstrato nas crianças. Ao utilizarmos corretamente uma poesia adequada ao imaginário da criança, conseguimos adentrar no universo infantil, dando a ela a capacidade de lidar e experienciar a realidade em seus diversos modos.

Pensar em poesia é pensar em uma viagem: é sempre uma experiência de retorno, um exercício que, cada vez que o realizamos, vivemos uma experiência única. Mas como qualquer exercício, é preciso que tenhamos uma prática para que ele se torne cada vez melhor e eficaz. Então, encontre seus autores preferidos e aproveite a leitura!


Dica de Leitura: Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira

“Por que motivo as crianças, de modo geral, são poetas e, com o tempo, deixam de sê-lo?”

Já que o clima é de poesia, lá vai uma dica à altura, organizada e ilustrada por Adriana Calcanhotto. Nesta obra, a cantora e compositora brasileira reuniu poesias dos maiores poetas brasileiros em um livro dedicado às crianças de todas as idades.

Livro: Antologia Ilustrada da Poesia Brasileira
Autora e ilustradora: Adriana Calcanhotto
Editora: Edições de Janeiro
Melhor idade: Todas
Onde encontrar: na Leiturinha Digital.

Sobre a Leiturinha

Criada em 2014, a Leiturinha é o maior clube de assinatura de livros infantis do Brasil, promovendo o momento da leitura compartilhada para mais de 18 mil famílias distribuídas em cerca de 2.700 cidades brasileiras. A atuação da empresa se baseia na entrega de experiência, carinho e curadoria para os leitores mirins, incentivando assim o hábito da leitura, além de aproximar e criar vínculos entre toda a família. Mensalmente cada assinante recebe em casa um kit contendo seus livros - selecionados de acordo com a etapa de desenvolvimento de cada pequeno leitor, uma carta pedagógica e outras surpresas, além do acesso gratuito ao aplicativo Leiturinha Digital - com mais de 700 livros e 300 vídeos - e também ao clube de vantagens com descontos de até 50% em diversas marcas e lojas parceiras. Para mais informações, acesse:www.leiturinha.com.br

sábado, 24 de setembro de 2016

Como foi construído o castelo teórico que condenou José Genoíno, um inocente

Eugênio Aragão


O risco dos castelos teóricos do ministério público em investigações complexas

por Eugênio José Guilherme de Aragão, no Conversa Afiada

Was nicht passt, wird passend gemacht
(O que não cabe, ajeita-se para caber)
– Dito popular alemão

É absolutamente legítimo, numa tentativa mais exata de explicar fatos complexos, isto é, fatos que não são apreensíveis intuitivamente em toda a sua extensão, que se busque a respeito deles construir um modelo teórico. Sugerem-se uns postulados, constroem-se hipóteses sobre suas causas e seus efeitos, que, uma vez testadas, se transformam em assertivas teóricas supostamente consistentes, ou seja, isentas de contradições entre si. No seu conjunto, essas assertivas formam uma teoria.

Teorias são por natureza transitórias, porque construídas sobre assunções que podem mudar com a construção de novas teorias que as falseiam. A falseabilidade é, segundo Karl Popper (in: A lógica da pesquisa científica; São Paulo: Cultrix, 1993), a característica essencial das teorias e, uma vez falseadas, elas seriam substituídas por novas teorias, assim provocando o avanço da ciência. Essa dinâmica pressupõe, é claro, cientistas honestos, aqueles que vestem as sandálias da humildade e se reconhecem falhos, abrindo mão, com modéstia, de suas hipóteses tão custosamente testadas.

Para outro estudioso da teoria da ciência, Thomas Kuhn (in: The Structure of Scientific Revolutions, 2.ª ed., enlarged; Chicago and London: University of Chicago Press, 1970), o avanço científico se daria não por esse automático falseamento sucessivo de teorias, mas, sim, por seu abandono, quando uma nova visão do fenômeno estudado sugere novas linhas de pesquisa. É o que ele chama de “mudança de paradigma” teórico, não deixando de a teoria antiga a continuar de pé, mas com pouca serventia para o que mais recentemente interessa. Assim, a física newtoniana não perdeu sua validade, mas não resolve problemas que podem ser melhor tratados com a teoria da relatividade.

Ainda outro estudioso do tema da evolução das teorias, Paul Feyerabend (in: Contra o método; Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves Editora, 1977), qualificado de anarquista gnosiológico, sugere que cientistas não são santos. Estão longe de se equipararem a carmelitas de pés descalços. Eles padecem dos vícios muito encontradiços em outros seres humanos, dentre os quais a vaidade e a soberba. Longe de abrirem mão de suas teorias, quando suspeitam de seu falseamento, promovem puxadinhos de novas hipóteses por testar, sempre no esforço, não de desistir da teoria, mas de camuflar suas inconsistências. Se necessário, até por meio de falácias ocultas. E isso torna todo castelo teórico muito frágil, prestes a ruir a toda hora e só mantido inteiro a custas de estacas de sustentação.

O agir de investigadores criminais, quando lidam com ilícitos de maior complexidade, envolvendo organizações e processos tortuosos de captação e irrigação de ganhos, parece não ser muito diferente. A polícia se serve muito de organogramas e fluxogramas, tentando estabelecer relações entre fatos e pessoas. O ministério público, sem deixar, também, de fazer uso desses instrumentos, vai além, porque tem que elaborar uma teoria que sustente a acusação.

Esse tipo de técnica foi largamente usado na denúncia da APn 470-DF, julgada pelo Supremo Tribunal Federal, conhecida como o caso do “mensalão”. Os procuradores que elaboraram o libelo, partiram, a priori, da existência de uma organização criminosa, que carreava recursos para distribuí-los a partidos e parlamentares da base de sustentação de governo, seja para remunerar seu apoio em votações de projetos de lei estratégicos para o governo, seja para amortecer dívidas de campanha.

Os recursos, no caso, eram definidos como públicos, supostamente advindos de bonificações da Visanet ao Banco do Brasil e de sobrepreços em contratos de publicidade, tudo disfarçado, também supostamente, como ativos de contratos de financiamento entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Banco Rural, que, ao ver dos acusadores, seriam simulados. Para realizar todo esse complexo intento, os atores envolvidos, ligados a empresas, bancos, governo e partidos, se organizariam, na teoria posta, de forma complexa em núcleos com diferentes atribuições. Haveria um “núcleo operacional”, um “núcleo financeiro” e um “núcleo político”, todos articulados entre si para permitir o funcionamento do esquema de desvio de ativos para a empreitada da garantia da governabilidade.

A experiência do uso do modelo teórico foi tão bem recebida por uma mídia comercial, ávida por uma versão que comprometesse todo governo do PT, que virou uma coqueluche nas rodas de procuradores da república. E logo se realizou, já na gestão de Rodrigo Janot como procurador-geral, curso de “mensalão” na Escola Superior do Ministério Público da União, para os colegas aprenderem a montar seus castelos teóricos como rotina acusatória.

O problema central de teorias investigativas é que, se forem estáticas, elas incidem sobre grave violação do princípio da presunção de inocência. O processo existe como uma sucessão de atos tendentes a criar uma sólida teoria sobre um acontecimento qualificado como crime. Nessa sucessão de atos, se dá às partes, acusação e defesa, a oportunidade de promoverem “provas”, isto é, demonstrações empíricas sobre a correção de suas hipóteses que são diametralmente opostas.

Toda suposição prévia sobre o acontecimento (hipótese por demonstrar) é, assim, provisória e o ministério público não pode ter o compromisso inabalável com seu acerto definitivo, eis que, se constatar que sua hipótese era falsa, deverá rejeitá-la, para defender a inocência do réu. Ele é fiscal da lei e não ferrabrás implacável.

No entanto, como humanos que são, incide sobre os investigadores o problema apontado por Feyerabend. Longe de terem a disposição de rever suas hipóteses quando falseadas por contra-hipóteses ou de abandonarem aquelas com sua substituição por um novo paradigma teórico, eles insistem até o fim na sua tese inicial e, se necessário for, fazem um puxadinho cá, um puxadinho lá, para, mantendo a teoria em suas linhas mestras, esconderem eventuais inconsistências decorrentes de contradições constatadas ao longo da instrução criminal. Assim, o construto mental inicial, mesmo que não plenamente provado, é apresentado como um fato definitivo.

As provas que vão chegando ao processo são empurradas, piladas, socadas para dentro das categorias pré-concebidas, para que se adaptem ao todo previamente desenhado, bem como sugere o dito popular alemão: “was nicht passt, wird passend gemacht“, ou “o que não cabe, ajeita-se para caber”. Não interessam as demonstrações de inocência provável do investigado/acusado, porque são antiestéticas. Sacrifica-se, com arrogância moralista, essa inocência pelo amor ao castelo teórico montado.

Foi assim que José Genoíno entrou na APn 470: apesar de nada haver contra ele a não ser duas assinaturas em contratos de financiamento com o Banco Rural, que foi obrigado, como dever estatutário de seu ofício de presidente do Partido dos Trabalhadores, a avalizar, foi socado no “núcleo político” para, ali, se desenhar uma quadrilha e chegar a José Dirceu. Todos sabiam da fragilidade da prova contra Genoíno, distante de ser “beyond any reasonable doubt”, além de qualquer dúvida razoável, a ponto de uma magistrada tê-la expresso, mas votando pela condenação desse réu “porque a doutrina lhe permitia”.

Esses castelos teóricos são de uma perversão desumana intolerável. O destino daquele sacrificado, publicamente exposto e estigmatizado como “corrupto”, pouco interessa. Pouco interessa que José Genoíno sempre morou na pequena casa geminada na divisa de São Paulo e Osasco, área de classe média baixa, com uma vizinhança composta de garçons e motoristas de táxi, que nunca adotou hábitos extravagantes, andando na capital de metrô e, quando em Brasília, pedindo aos amigos para buscá-lo no aeroporto para levá-lo a um dos mais baratos hotéis da capital, onde era freguês cativo.

A ninguém interessou, naqueles dias, o tanto que Genoíno colaborara, na Constituinte de 1987-1988, com o lobby do ministério público para criar um órgão forte e eficiente. Ninguém se lembrou que era uma pessoa festejada por todos os procuradores-gerais, inclusive aquele que pediu sua prisão, sabendo-o inocente. O trabalho de se ter montado o “esquema” do “mensalão” era mais importante, até porque a imprensa já o havia disseminado e o relator no STF já havia publicamente destratado os colegas que pudessem estar em dúvida a respeito.

Piores ainda são os castelos construídos por “task forces”, forças tarefas, criadas por polícia e ministério público, com todo o estardalhaço e defendidas com unhas e dentes pelo juiz, pelo Conselho Nacional do Ministério Público que a premia e, claro, pela mídia interessada no desgaste desse ou daquele ator político alvo das operações. É que a montagem de uma força tarefa é feita com tanto rapapé que ela fica sob permanente pressão de apresentar resultados. Ninguém cria força tarefa para arquivar um inquérito.

Esse estardalhaço, por si só, fere mortalmente a presunção de inocência e vai consolidando na opinião pública, como um enredo de novela de fim previsível, a certeza do acerto da teoria inicial sobre o envolvimento dos atores escolhidos nos fatos supostamente ocorridos. O castelo teórico montado em força tarefa tem frequentemente como fundamento delações premiadas levadas a cabo com enorme pressão psicológica exercida sobre os potenciais delatores, direcionadas a alvos previamente escolhidos pelos investigadores e pelo juiz para dar contornos de solidez ao modelo teórico concebido sobre os fatos em investigação.

Torna-se, pois, esse castelo, inexpugnável e a teoria, por mais canhestra, passa a ser tratada como infalseável. Troca-se a ciência na investigação pela ideologia doutrinária, que vê em tudo corrupção como mal a ser extirpado, custe o que custar. Passam-se a adotar até doutrinas estrangeiras fora de seu contexto e completamente deturpadas de seu significado original, como o instituto do domínio do fato (“Tatherrschaft”), concebido por Claus Roxin: aquilo que foi imaginado como um instrumento para medir o grau de culpabilidade de cada um num concurso eventual de agentes, num sistema que, diferentemente do nosso, trata cada tipo de concurso (coautoria, participação, instigação) de forma diferenciada, foi transmutado num instrumento de atribuir crime por responsabilidade objetiva. Mas não interessa. Isso é só mais um “legítimo” puxadinho para dar aparência de consistência ao construto mental a priori dos acusadores.

As forças tarefas revelam, no entanto, outro problema sério, afora a deficiência dos castelos teóricos. Esse problema é tão grave, que, definitivamente, mostra a desumanidade de seu uso pela polícia e pelo ministério público. É que elas são um instrumento que incorporam a própria falta de accountability de seus atores, extraordinariamente empoderados no sistema constitucional brasileiro.

Diferentemente de outros modelos organizacionais, encontradiços no direito comparado, no Brasil, a polícia, o ministério público e o juiz são personagens do processo penal que não sofrem maior supervisão sobre a substância de seu trabalho. Na Europa continental, a polícia é supervisionada pelo Ministério do Interior, que exerce sobre ela um poder de mando. Elas são “weisungsgebunden“, vinculadas à determinação ministerial. O mesmo ocorre com o ministério público, sujeito à supervisão concreta do Ministério da Justiça, a cuja estrutura pertence. E o juiz, por sua vez, está sujeito à autoridade disciplinar do presidente do tribunal, escolhido pelo Ministro da Justiça. Já entre nós, cada um desses atores bate com a mão no peito e se gaba de sua independência funcional, numa extensão exagerada que se consolida nos respectivos imaginários corporativos.

Não percebem, porém, nossos personagens públicos do processo penal, que sua independência é adequadamente calibrada na constituição, na lei e em regulamentos. A do juiz se restringe claramente aos limites da lide. O juiz é independente para transitar no espectro entre a tese do autor e a do réu. Ele não tem liberdade de decidir extra petita. O ministério público tem outro tipo de independência, que não é uma prerrogativa funcional, mas, conforme prevê o art. 127 da Constituição, é um “princípio institucional”, ou seja, uma diretriz de organização interna do órgão. Nem poderia ser diferente, já que o ministério público, ao deter a iniciativa de ação, não tem sua independência balizada pela lide já construída pelas partes. A se imaginar uma tal independência sem balizamentos que há para o exercício da jurisdição, cada membro do ministério público se converteria numa metralhadora giratória, cuspindo bala para todas as direções. E nenhum estado poderia conviver com isso.

Por isso, a independência funcional como princípio institucional encontra seus limites nos outros princípios institucionais mencionados no mesmo artigo: a unidade e a indivisibilidade do ministério público (solenemente ignorados por grande parte de seus membros). Por estes princípios pressupõe-se que o ministério público aja concertadamente em todas as instâncias e em todos os campos de atribuições. A independência funcional passa a ter um caráter negativo: ela só existe para que o membro individualmente não seja coagido a se posicionar contra sua convicção. Havendo uma tese coletivamente acertada na instituição, da qual ele venha a discordar, tem o direito de pedir a redistribuição do feito para não atuar nele contrariando a unidade de ação da instituição. E nada mais.

A polícia, por outro lado, não tem independência funcional nenhuma. Seus agentes estão sob plena supervisão de suas estruturas internas e, no caso da polícia federal, também do Ministério da Justiça. Ocorre que se consolidou o costume regulamentar de se respeitar o trabalho individual de cada delegado, com o imaginário corporativo de que essa “independência” decorrente de tal costume se equipara à do ministério público. Mas isso, repito, é só o imaginário corporativo.

No entanto, ninguém nega que, no Brasil, principalmente no plano federal, a polícia detém um poder significativo de pressão que dirige contra o legislativo, onde dispõe de bancada própria, e contra o executivo: é mais fácil o Ministro da Justiça cair por conta de um conflito com o diretor-geral da polícia federal, do que o contrário. Paulo Brossard foi nomeado para o Supremo como meio de tirá-lo do ministério, onde entrara em confronto com o diretor-geral Romeu Tuma.

Com atores tão poderosos, muitas vezes, na prática, além do que a lei lhes garante, o processo penal, para resguardar os direitos do investigado/acusado, tem que se organizar de outra forma, criando um sistema de “checks and balances” entre os três órgãos públicos envolvidos na persecução penal. Basicamente, se a polícia, na investigação, comete algum abuso, este pode ser prontamente corrigido pelo ministério público, que exerce o controle externo da atividade policial; se o ministério público se houver além dos limites legais, recorre-se ao juiz, que devolverá o processo ao seu leito natural e, se o juiz praticar ilegalidade, tem a segunda instância para corrigi-lo. Cada um no seu quadrado.

Por essa razão, não há previsão constitucional de investigação criminal pelo ministério público, para que as atribuições não se misturem. Ainda assim, o Supremo Tribunal Federal, ao julgar, com repercussão geral, o RE 593727/MG, rel. Min. Cezar Peluso, julg. 14.5.2015) tem admitido excepcionalmente essa investigação pelo parquet, quando motivos extraordinários o recomendem (por ex. omissão da polícia ou envolvimento da polícia no crime). O que o acórdão deixou de enfrentar é que, se essa investigação é excepcional, deve ser motivada e a motivação submetida previamente ao juiz, que reconhecerá, ou não, a hipótese de excepcionalidade.

Esse controle é essencial para se ter transparência e “accountability” por parte do ministério público. Depois de autorizada a investigação, ela deve seguir o rito do inquérito policial, com remessa, a cada 30 dias, dos autos para o juiz, para que ele supervisione a atuação dentro do sistema de “checks and balances”. Isso pressupõe que o juiz não seja parceiro do ministério público, combinando com este “o jogo”, sob pena de colocar em sério risco as garantias fundamentais do investigado/acusado.

Forças tarefas que envolvem trabalho conjunto de polícia com ministério público na montagem do castelo teórico e na sua solidificação, sob a suspeita imiscuição do juiz em todas as etapas, são, por isso, inconstitucionais. Porque, se os três atores públicos se mancomunam, ao invés de se controlarem sucessivamente, o jurisdicionado fica sem ter a quem recorrer contra eventuais abusos articulados. Isso viola o princípio do amplo acesso à justiça (nenhuma lesão de direito poderá ser subtraída da apreciação do judiciário) e inviabiliza a garantia do devido processo legal. Forças tarefas podem ser legitimamente constituídas entre órgãos da mesma administração: polícia e previdência social ou polícia e receita federal, mas jamais em atuação conjunta com órgão parajurisdicional ou jurisdicional, pois quebra a dinâmica do controle sucessivo.

O que se percebe, hoje, na força tarefa da operação Lava Jato é precisamente isso: polícia, ministério público e juiz como parceiros de uma mesma empreitada, protegendo-se reciprocamente, tudo em nome da necessidade de rigor no combate à corrupção. Expõem-se castelos teóricos para o público que não são em absoluto conferíveis em suas premissas, para chegar a conclusões antecipadamente postuladas, por exemplo, de que Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente, era o chefe de uma organização criminosa instalada em seus governos.

Nenhuma prova sólida é apresentada, mas apenas suposições baseadas em duvidosas declarações de terceiros, muitos, verdadeiras testemunhas de “hearsay”, sem credibilidade, todas socadas nos “escaninhos” teóricos prévios. E, como dita o teorema de Clavius (Lex Clavius), na lógica silogística, ex falso sequitur quodlibet: do falso pode-se deduzir qualquer coisa. Se as premissas são falsas, a conclusão pode ser falsa ou verdadeira, isto é, ela será indecisível (afinal, se todos chineses falam português e Michel Temer é chinês, Michel Temer fala português…).

Mas fazem-se coletivas de imprensa em salas de conferências de luxo, alugadas com dinheiro público, para apresentação de vistosos gráficos de Powerpoint de impressionante fragilidade, sempre em prol de uma teoria prévia, que desconhece a dignidade humana e a presunção de inocência do investigado exposto, por darem-se como definitivos os pressupostos hipotéticos dessa teoria montada.

Para encerrar, é importante advertir que não se deve desconsiderar que o uso desse método de procurar explicar fatos complexos por uma série de hipóteses a serem testadas para formarem uma consistente teoria do crime atribuído ao investigado/acusado é um instrumento válido e legítimo, desde que, na busca da melhor verdade, se tenha flexibilidade no falseamento ou na refutação de uma ou outra hipótese e, com isso, permitir o reconhecimento da inocência de um ou outro implicado.

Importa, isto sim, os investigadores vestirem as sandálias da humildade e reconhecerem suas próprias limitações. O método não pode servir de “fait accompli”, fato consumado, anulando o esforço da defesa. Por essa razão, os três poderosos atores público têm que ficar, cada um, em seu quadrado, agindo discretamente para evitar expectativas públicas por esse ou aquele modelo hipotético e para tornar real a flexibilidade do falseamento teórico ou a superação da teoria posta, por outra, com fundamentos diversos, compondo novo paradigma. Só assim se garante ao jurisdicionado um “fair trial”.

Eugênio José Guilherme de Aragão: Doutor em direito pela Ruhr-Universität de Bochum (Alemanha), mestre (LL.M.) em direito internacional dos direitos humanos pela University of Essex (Reino Unido), foi Ministro de Estado da Justiça do governo Dilma e exerce, hoje, os cargos de Subprocurador-Geral da República no Ministério Público Federal e de Professor Adjunto na Universidade de Brasília.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

14 Truques psicológicos que todo mundo deveria saber

A vida pode ser difícil em várias horas. Existem situações que nos deixam confusos, sem saber o que fazer e o que entender, e tudo o que a gente gostaria é que tivéssemos ao menos uma pista.

Os truques a seguir vão te fazer enxergar uma luz no fim do túnel até mesmo nos momentos mais tensos que a vida nos proporciona. Aprenda:

1. Quando um grupo inteiro começa a rir de algo, as pessoas tendem a olhar diretamente para aqueles de quem se sentem mais próximos;


2. Mascar chiclete ou comer algo em situações estressantes realmente acalma nosso cérebro, que entende que se estamos comendo, não há situação de perigo;



3. Antes de entrevistas de emprego, imagine que você é um velho amigo do seu entrevistador. Você vai assumir uma posição de controle, e o seu controle será visto com positividade;
4. Se você perguntar algo a alguém e a pessoa der apenas meia resposta, mantenha o contato visual e fique quieto. A pessoa vai se sentir intimidada e completar a resposta;



5. Forçar expressões de emoção é uma boa forma de causar a própria emoção. Por exemplo, se você quer sentir felicidade, comece forçando um sorriso;



6. Evite dizer ou escrever “eu acho que”, “eu acredito que”. Além de já ser algo implícito, demonstra falta de confiança em suas próprias palavras;
7. Se você está envolvido em alguma discussão, permaneça calmo. O seu adversário vai ficar cada vez mais estressado, mas depois vai se sentir muito envergonhado;



8. Se você se mostrar feliz e entusiasmado ao encontrar outras pessoas, elas se sentirão felizes e entusiasmadas em relação a você da próxima vez que se encontrarem – cachorros usam esse truque o tempo todo;



9. Se você quer pedir um favor a alguém, proponha um ou dois favores maiores antes. O que você vai pedir de fato, vai parecer bem menor;

10. Muitos efeitos do estresse são bem similares aos efeitos da euforia (respiração pesada, batimentos acelerados…). Se você começar a perceber a situação de estresse como um desafio, seu estresse vai se transformar em euforia;

11. Se você trabalha com atendimento ao público, coloque um espelho atrás de você. As pessoas serão mais gentis, pois ninguém quer ver a si mesmo sendo estúpido e grosseiro;



12. Para um primeiro encontro, leve a pessoa para fazer algo emocionante e excitante. Ela associará você a fortes emoções. Por isso, se vai ao cinema, fuja de romances, prefira grandes aventuras ou filmes de terror;

13. Repare na cor dos olhos das pessoas assim que você as conhece. Elas vão gostar mais de você se notarem contato visual;



14. A maioria das pessoas não consegue entender a diferença entre ser brilhante de ter confiança. Se você aparenta saber o que está fazendo, as pessoas tendem a se reunir em torno de você e te seguir.

Fonte: Bright Side

sábado, 23 de julho de 2016

Canela em pó aumenta capacidade de aprendizagem


Condimento mental

Que a canela é uma adição deliciosa a muitas receitas é algo que todos sabem.

O que ninguém esperava é que ingerir a cheirosa e saborosa especiaria também pudesse melhorar a capacidade de aprendizagem.

Neurocientistas do Centro Médico da Universidade de Rush (EUA) descobriram que a ingestão de canela por animais de laboratório com pequena capacidade de aprendizagem fez com que os camundongos passassem a aprender melhor os truques que lhes eram ensinados.

"Esta seria uma das abordagens mais seguras e mais fáceis para converter alunos ruins em bons alunos," brinca o professor Kalipada Pahan, principal do trabalho publicado no Journal of NeuroImmune Pharmacology.

Como a canela melhora a aprendizagem

Algumas pessoas parecem já nascer boas alunas - com facilidade de aprendizagem - e outras se tornam boas alunas por esforço próprio, mas algumas continuam achando difícil aprender novas tarefas mesmo com esforço. Contudo, pouco se sabe sobre os processos neurológicos que regulam essa capacidade de aprendizagem.

O que se sabe é que o hipocampo - uma pequena parte do cérebro que gera, organiza e armazena a memória - dos alunos com dificuldade de aprendizagem tem menos CREB, uma proteína envolvida na memória e no aprendizado, e mais subunidades alfa-5 dos receptores GABA-A ou GABRA-5, uma proteína que gera uma condutância inibitória tônica no cérebro.

O que se verificou no experimento foi que os camundongos que receberam alimentação oral de canela em pó metabolizaram o condimento em benzoato de sódio, um produto químico utilizado como medicamento para o tratamento de danos cerebrais. Quando o benzoato de sódio entrou no cérebro, ele gerou um aumento da CREB, uma diminuição do GABRA-5 e estimulou a plasticidade dos neurônios do hipocampo.

Essas mudanças, por sua vez, melhoraram a memória e a capacidade de aprendizagem dos animais.

"Utilizamos com sucesso a canela em pó para reverter as alterações bioquímicas, celulares e anatômicas que ocorrem no cérebro dos camundongos com má aprendizagem," disse Pahan.

Canela do Ceilão

Mas nem todos os tipos de canela em pó são igualmente eficientes: os pesquisadores compararam a canela do Ceilão e a canela da China.

"Embora os dois tipos de canela sejam metabolizados em benzoato de sódio, vimos que a canela do Ceilão é muito mais pura do que a canela chinesa, já que esta última contém cumarina, uma molécula hepatotóxica (prejudicial ao fígado)," disse Pahan.

Os resultados foram publicados no Journal of Neuroimmune Pharmacology.

terça-feira, 5 de julho de 2016

Aromaterapia

Bergamota: Antidepressivo e Estimulante
  • Camomila: Relaxante
  • Canela: Estimulante
  • Cardamono: Estimulante
  • Cedro: Relaxante
  • Cipreste: Relaxante
  • Citronela: Relaxante
  • Cravo: Estimulante
  • Gengibre: Relaxante
  • Gerânio: Antidepressivo e Relaxante
  • Grapefruit: Antidepressivo e Relaxante
  • Hortelã: Estimulante
  • Jasmim: Afrodisiaco
  • Laranja: Relaxante
  • Lavanda: Relaxante
  • Limão: Antidepressivo
  • Manjericão: Estimulante
  • Patchouli: Afrodisíaco
  • Pimenta-negra: Antidepressivo
  • Rosa: Afrodisíaco
  • Sândalo: Relaxante
  • Tangerina: Antidepressivo
Fonte: Anuário de Feng Shui – Editora Revista Online