segunda-feira, 9 de maio de 2016

Câmara acata pedido da AGU e anula sessão do impeachment

Posted: 09 May 2016 11:23 AM PDT


O presidente em exercício da Câmara dos Deputados, Waldir Maranhão, aceitou o pedido da Advocacia-Geral da União (AGU) para anular a sessão plenária na qual foi aprovado o pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff.

O recurso assinado pelo advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, foi apresentado no último dia 25 de abril ao então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, cujo mandato foi suspenso por decisão unânime do Supremo Tribunal Federal (STF). A AGU apontou irregularidades nas sessões que desrespeitaram o regimento interno da Câmara, os princípios do contraditório e da ampla defesa e o rito processual estabelecido pelo STF.

Maranhão afirmou, em nota divulgada nesta segunda-feira (9), que os partidos não poderiam ter fechado questão e orientado o voto dos parlamentares, que “deveriam votar de acordo com as suas convicções pessoais e livremente”.

O presidente da Câmara também listou entre os argumentos o fato de os deputados terem antecipado seu voto antes da votação.

“Isso caracteriza prejulgamento e clara ofensa ao amplo direito de defesa que está consagrado na Constituição”, disse Maranhão.

A decisão da Câmara registrou, ainda, que a defesa da presidenta Dilma não poderia “ter deixado de falar por último no momento da votação, como acabou ocorrendo”. Maranhão determinou, assim, o retorno do processo à Câmara, que deverá votar novamente em até 5 sessões plenária.

Impeachment deve ser votado novamente pela Câmara, diz José Eduardo Cardozo

Segunda-feira, 9 de maio de 2016 às 17:24


Cardozo explica as razões da anulação da sessão da Câmara dos Deputados. Foto: Divulgação/ AGU

O advogado-geral da União, José Eduardo Cardozo, disse nesta segunda-feira (9) que o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff deverá retornar para a Câmara dos Deputados e ser votado novamente, por conta da decisão do presidente em exercício da Casa, Waldir Maranhão, que determinou a nulidade das sessões dos dias 15, 16 e 17 de abril. “Ao assim decidir, se determinou a nulidade da autorização dada ao Senado para que se processe o impeachment. A partir desse momento o que cabe é a Câmara realizar novamente a sessão de votação”, defendeu Cardozo.

Com isso, na opinião do ministro, todo o trâmite do processo no impeachment no Senado fica anulado. Ele explica que cabe aos deputados votarem novamente e,se aprovarem o afastamento da presidenta mais uma vez, o Senado deve reinstaurar a comissão especial de impeachment a partir do que ficar registrado pela Câmara numa resolução definindo o objeto do processo.

No processo anterior, a resolução não foi apresentada, segundo Cardozo, diferentemente do que ocorreu no processo do ex-presidente Fernando Collor, em 1992. Esse foi um dos argumentos acatados por Maranhão. Isso porque a AGU diz que o resultado da votação deveria ter sido formalizado por resolução. No entanto, a decisão foi encaminhada ao Senado Federal por meio de ofício.

Na visão do AGU, o procedimento em tramitação no Senado Federal se tornou nulo com a decisão de Maranhão, pois não existe mais a autorização para que os senadores avaliem o processo. “A autorização é uma condição de procedibilidade do processo. Se a condição não existe, o processo não pode ser promovido”, disse. “Senado não pode processar e julgar um processo de impeachment por algo que não tem autorização da Câmara. Esta autorização, que é uma condição, foi anulada. Então falta o requisito processual.”

Cardozo lembrou que o recurso foi apresentado pela AGU dia 25 de abril, logo após a decisão tomada pela Câmara em 17 de abril, dentro do prazo legal, com o objetivo de questionar vícios que ocorreram na sessão. O ministro afirmou que o presidente afastado da Câmara, Eduardo Cunha, poderia ter rejeitado o pedido, evitando a decisão de Maranhão. “Se a Câmara não quisesse apreciar [a petição da AGU], dissesse indeferido. Nada foi feito. Nem que sim nem que não”, observou. “Esse processo ficou parado dias e dias. O então presidente Eduardo Cunha não tomou uma decisão”, frisou.

Um dos principais pontos levantados por Cardozo, e acolhido por Maranhão, diz respeito ao encaminhamento de votações pelos partidos durante as sessões. Isso é proibido pelo artigo 23 da lei 1.079/1950, mas os partidos orientaram qual deveria ser a postura dos deputados durante a votação. “Por que a lei veda encaminhamento? Por uma razão muito simples: embora impeachment seja um processo jurídico-político, é de fundamental importância que eles votem de acordo com sua convicção pessoal”, explicou o AGU.

Outros pontos também acolhidos pelo presidente em exercício da Câmara dizem respeito aos princípios do contraditório e da ampla defesa. Os deputados não poderiam ainda ter anunciado suas posições antes da sessão que decidiu dar continuidade ao processo de afastamento da presidenta Dilma.

Prazo
Cardozo rebateu as críticas de que o recurso apresentado estaria fora do prazo, uma vez que o Senado já está apreciando a questão. “Esse recurso foi apresentado do prazo devido, e uma pessoa não pode sofrer lesão a seu direito só pela demora a responder. Não é possível que em um Estado de Direito um recurso não possa ser apreciado por ninguém. É uma situação absolutamente paradoxal”, afirmou.

domingo, 8 de maio de 2016

No país dos truques

Janio de Freitas, hoje, na Folha

A suspensão do mandato de Eduardo Cunha, motivo de polêmica ainda por muito tempo, sufocou a denúncia judicial de Lula e de Aécio, entre outros, pelo procurador-geral Rodrigo Janot. A repentina pressa do Supremo Tribunal Federal em afastar o presidente da Câmara poupou Janot de questionamentos, do PT e do PSDB, por aquela solicitação. Mas não evita sua inclusão como personagem destes tempos de truques: no plenário e no Conselho de Ética da Câmara, no Senado e suas agendas, na Lava Jato, acusados no governo, e há quem os veja mesmo no Supremo.

Durante um ano, seis meses e meio, ou os 559 dias constatados por Bernardo Mello Franco desde a primeira citação a Aécio na Lava Jato até ser denunciado, os demais delatados por Alberto Youssef foram objeto de atos do juiz Moro ou de Janot. Aécio, não. Poderia ser por investigações em andamento. Mas a denúncia nada trouxe assim. Por que é feita agora? Por causa de Lula.

A dedução é inevitável. A presença de Aécio neutraliza, ao menos atenua, a reação ao novo e grave fato por parte dos convictos de perseguição organizada a Lula, para impedir sua eventual candidatura em 2018. Aécio ficou guardado por mais de ano e meio, até ser, mais do que uma pessoa e um denunciado, uma utilidade manejável e precisa. Olha, o Aécio também está denunciado.

Alguns dirão: Aécio, aquela azeitona. Ele se deixou assimilar no papel com naturalidade, disponível para a resposta única de que a denúncia não o ameaça. Deve estar certo. O que nem de longe significa que na década passada faltassem improbidades tremendas na estatal Furnas. Em cujo elenco, aliás, o astro já era Eduardo Cunha. E não por coincidência, nos últimos tempos, tal como a denúncia diz daqueles idos, com Aécio a ele associado no mesmo roteiro.

São truques demais, nestes tempos. Sem falar na imprensa, Deus me livre. Lula virou denunciado nas vésperas de uma votação decisiva para o impeachment. Assim como os grampos telefônicos, ilegais, foram divulgados por Moro quando Lula, se ministro, com sua experiência e talento incomum de negociador talvez destorcesse a crise política e desse um arranjo administrativo. Há dois anos vemos as prisões persistentes até a delação, que recursos não faltam a juízes para defender prisões. São muitos truques. E agora Aécio com Lula. E já Dilma: é preciso inviabilizar o retorno.

São muitos truques. E mais virão onde o Supremo os supõe extintos. Pois ninguém sabe até quanto se esvazia o poder de Eduardo Cunha sobre grande parte da Câmara. Tal poder está conectado a interesses presentes e futuros, financeiros-eleitorais inclusive, e a um arsenal de informações pessoais inimaginável, recente e passado. Não à toa, contou Cunha que Michel Temer foi dos primeiros a telefonar-lhe depois da suspensão de seu mandato, em evidência da definição do vice entre os vários segmentos opostos.

Sob o predomínio dos truques, Cunha e seus aliados não acusariam o Supremo de outra coisa. Na verdade, o Supremo produziu um sofisma jurídico. A suspensão do mandato de Eduardo Cunha sem duração prevista é, na prática, cassação. Se o Conselho de Ética o cassar, e talvez seja difícil fazê-lo, ou se não o cassar. Neste segundo caso, o Supremo não sustará a suspensão: a maioria das acusações estará imutável. Cunha irá suspenso até o fim do seu mandato. E isso, quanto à condição parlamentar, é o mesmo que cassação.

Estamos sendo embalados por truques demais. Políticos, econômicos, judiciais, policiais, por toda parte. O governo que promete um “ministério de notáveis”, reformas e fim das crises, é mais um. O de maior alcance e, tudo indica, o mais desastroso.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

Relatório da OAB do Rio indica responsáveis por escravidão no Brasil

Publicado por CdB em: 05/05/2016

O presidente da comissão, advogado Marcelo Dias, informou que a próxima etapa é a busca por reparação aos que ainda sofrem as consequências do período

Por Redação, com ABr – do Rio de Janeiro:

A escravidão no Brasil e as violações de direitos humanos cometidas por mais de três séculos contra africanos e descendentes tiveram três grandes responsáveis: o Estado brasileiro, o Estado português e a Igreja. É o que indica o relatório parcial da Comissão Estadual da Verdade da Escravidão Negra no Brasil da Ordem dos Advogados do Brasil o Rio de Janeiro (OAB-RJ), apresentado nesta quinta-feira no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia em Engenheiro Paulo de Frontin, no interior do estado, primeiro dos 11 municípios visitados pela comissão.


A comissão foi criada em março de 2015

A comissão foi criada em março de 2015. O trabalho durou oito meses, após audiências públicas pelo estado e visitas a terreiros e comunidades quilombolas, além de contato com as universidades. O presidente da comissão, advogado Marcelo Dias, informou que a próxima etapa é a busca por reparação aos que ainda sofrem as consequências do período, com direitos negados.
Próximo passo

– Apontamos inicialmente esses três agentes responsáveis. Os estados brasileiro e português, por motivos óbvios. A igreja, por legitimar o processo escravocrata ao negar humanidade aos africanos, ao dizer que os africanos eram coisas, inclusive ao arrancar o direito do nome africano, justificar essa perda de identidade dos descendentes dos africanos no Brasil –
acrescentou Dias.

– O próximo passo é resgatar essa identidade africana e exigirmos da Igreja, do Estado brasileiro e do Estado português a reparação desse crime cometido durante 350 anos de escravidão e 127 anos de exclusão do negro em nosso país.
Relatório

Entre as reivindicações da comissão está a criação de centros de referência da herança africana em algumas regiões do estado. “O prédio, chamado Docas Dom Pedro II, na região portuária, foi construído no período da escravidão pelo engenheiro negro André Rebouças, que se recusou a usar mão de obra escrava e só utilizou trabalhadores livre. Queremos que esse prédio se torne um centro de referência.”

De acordo com o presidente da comissão, as seis reuniões ampliadas e cinco audiências públicas mobilizaram mais de mil pessoas, que ajudaram a reescrever a história do negro no Brasil. “O relatório reconta a história do negro e da escravidão do ponto de vista daqueles que foram escravizados, que ficaram sem voz durante 350 anos de escravidão, além de apontar os responsáveis por essa tragédia que se abateu sobre o continente africano, os africanos escravizados e seus descendentes.”

O relatório final deve ser concluído em dezembro de 2018. Até lá, a comissão pretende visitar metade dos 92 municípios do estado.

O que está por trás da mentira de Carlos Sardenberg sobre a Petrobras

MÍDIA DESONESTA 06/MAY/2016 ÀS 15:53

Tentando justificar os interesses sombrios para o atual plano de venda de ativos da Petrobras, o jornalista da Globo, Carlos Alberto Sardenberg, demonstra inconsequência e falta de responsabilidade para tratar sobre a maior empresa brasileira

Carlos Alberto Sardenberg (reprodução)

Claudio da Costa Oliveira, Brasil Debate

O jornalista Carlos Alberto Sardenberg publicou artigo no último dia 28 no qual mostra total inconsequência e falta de conhecimento para falar sobre a Petrobras. Na sua tentativa de buscar justificativas, por interesses sombrios, para o atual plano de venda de ativos por que passa a empresa, busca denegrir o nome da companhia com informações descabidas e inverídicas.

Não sabemos quais são as fontes de informação do sr. Sardenberg, mas certamente não vêm dos balanços publicados e nem dos fatos relatados no site da empresa.

Na verdade, acreditamos que ele não precisa de fonte de informação, pois ele cria a informação da maneira que bem entende, para alcançar seus objetivos sorrateiros.

Sabemos muito bem que nossos artigos ficam muito longe de alcançar a audiência dos artigos deste cidadão, mas pelo menos queremos fazer nossa parte na defesa do nome da Petrobras e no esclarecimento da classe petroleira.

Sem a menor vergonha o referido jornalista afirma: “Quebraram a estatal. Vamos falar francamente: a Petrobras só não está em pedido de recuperação judicial porque é estatal. Todo mundo espera que, em algum momento, o governo imprima dinheiro para capitalizar a empresa.”

Parece que o referido jornalista finge desconhecer o fato de que a Petrobras tem apresentado lucro constante desde 1991, o que só foi interrompido agora em 2014 e 2015 devido a ajustes contábeis (impairments) altamente contestados, mas que na verdade são apenas registros econômicos que não afetam o caixa da empresa.

Que juiz vai conceder recuperação judicial para uma empresa que tem US$ 25 bilhões em caixa? O maior caixa de todas as petroleiras do mundo.

Que juiz vai conceder recuperação judicial para uma empresa que gasta US$ 20 bilhões por ano com investimentos?

Que juiz vai conceder recuperação judicial para uma empresa para a qual o Banco de Desenvolvimento da China abriu linha de crédito de US$ 10 bilhões, recebendo como garantia apenas a promessa de fornecimento futuro de petróleo?

Se tem alguém esperando que o governo faça alguma capitalização para “salvar” a Petrobras, é bom avisar que tenham paciência, pois vão esperar muito. Em entrevista após a publicação do balanço de 2015, o presidente Bendine reconheceu: “O caixa da empresa cobre suas necessidades até o final de 2017”.

Soma-se a isto o fato do fluxo de caixa projetado pela companhia para 2016 indicar que, somente neste exercício, a Petrobras vai gerar operacionalmente mais de US$ 22 bilhões de caixa.

O referido jornalista vai mais longe e sugere: “O presidente da companhia também deveria ser procurado no mercado. Inclusive no mercado internacional. Qual o problema de se colocar executivo chinês ou norueguês tomando conta da Petrobras?”

Evidentemente, evitando sugerir diretamente a privatização da Petrobras, ao que tudo indica o jornalista quer ir por etapas. Afirma, ainda:

“A companhia tem problemas em todos os lados, inclusive de excesso de pessoal e de pessoal mais bem remunerado que no mercado”

O jornalista esquece de dizer que este excesso de pessoal bem remunerado está extraindo petróleo no pré-sal num custo abaixo de US$ 10, o mais baixo entre todas as majors.

Na verdade, como já falamos outras vezes, a Petrobras continua produtiva e lucrativa. Apesar dos problemas de corrupção e políticos, a empresa na essência é a mesma.

No próximo dia 12 será divulgado o resultado do 1º trimestre de 2016. Sabemos que em 2016 ainda estão previstos pagamentos de “garantias judiciais” referentes a problemas pretéritos, que nada têm a ver com a operação da empresa, no montante de US$ 5 bilhões.

Esperamos que tais pagamentos não sejam feitos de uma só vez neste trimestre. Mas, qualquer que seja a decisão, o balanço vai mostrar uma empresa economicamente sustentável com forte geração de caixa, o que incomoda a alguns jornalistas.

domingo, 1 de maio de 2016

Ziraldo: ‘Dilma é uma fortaleza’


“Se cassarem Dilma, ela vai passar para a história como a Joana d’Arc, vai ser uma das maiores heroínas da história recente do Brasil”. Foto: Blog do Planalto

Em entrevista ao Blog do Planalto, nesta sexta-feira (1), o cartunista Ziraldo analisa o atual momento político no Brasil, traça paralelos entre o período da ditadura e enaltece a força da presidenta Dilma, que segundo ele, está sendo “atacada e perseguida”. Para Ziraldo, os mesmos atores que apoiaram o regime militar são os que defendem hoje o impeachement.

Ziraldo, você já viveu outros momentos parecidos com o atual, de grande agitação política. O que você está vendo agora, você já viu acontecer antes, do mesmo jeito?

Olha, a história política do Brasil, ao longo da minha vida, sofreu muitas alterações mas todas fáceis de identificar pela coerência delas. Eu fiz 18 anos em 1950 e eu comecei a viver adulto toda a metade do século 20, e venho vivendo observando o que está acontecendo muito atentamente por causa da natureza do meu trabalho de chargista e tudo mais. Depois, durante a ditadura, eu e os meus amigos fizemos um jornal, que se chamava Pasquim. Então o que eu digo é o seguinte, foi o que eu falei ontem lá no palanque da nossa manifestação, dessa data da década de 50, na morte do Getúlio, eu intuitivamente escolhi o lado que eu achava que era o lado certo da história. Eu vou permanecer ao lado do lado certo da história. Quer dizer, é uma convenção para mim. E vim coerentemente sempre desse lado. Às vezes me desesperando, às vezes cometendo erros, mas na essência eu mantive esse lado o tempo todo. E prestei atenção no outro lado que era exatamente o inverso do que eu pensava do Brasil, do que eu queria no Brasil, esse negócio todo. Então esse pessoal do outro lado eu conheço tanto quanto o pessoal do meu lado. Eu vim observando a vida deles e fiquei atento esse tempo todo, 50 anos mais 16, 66 anos que eu estou prestando atenção na história do Brasil e identificando esses dois lados. Então, nesse momento, eu chego aqui e fica claro para mim, eu percebo que os dois lados continuam os mesmos. E quem está querendo o impeachment da Dilma é o outro lado, o outro lado que eu venho observando. Não é o lado que eu venho achando que é o certo da história, são as mesmas figuras. Não são só as mesma circunstâncias não, são as circunstâncias que querem esse impeachment e são os mesmos atores. Eu acho que para continuar a viver com coerência eu tenho que me comprometer como eu sempre me comprometi. Eu estou aqui por um compromisso comigo mesmo. Não quero dar opinião sobre as coisas porque são muito controversas. Eu não estou querendo defender minha posição, estou só explicando qual é minha posição. Eu acho que eu continuo do lado certo da história e estou observando os caras que não considero no lado certo da história, e eles estão aí, são os mesmo atores e são as mesmas circunstâncias.

Os motivos também se repetem, o motivo dessa divisão que a gente vê nas ruas do País são os mesmos?

Isso é fácil. Você pega as manifestações desde que eu entrei na dança, em 1950, é a mesma coisa, mataram o Getúlio, o Getúlio se suicidou. Quem matou o Getúlio? A carta dele explica lá qual é o lado. Apesar de ser uma ditadura ele tinha mudado a história do Brasil completamente e estava no poder eleito, ele não era mais ditador. Depois vem o golpe militar, é fácil ver qual é que era o meu lado, qual é o lado que eu não estava. Eu estava atuando no lado que eu achava certo, fazer minha revistinha do Saci Pererê, atuando politicamente. Depois, assim que a ditadura se manifestou concretamente, eu e meus amigos fundamos o Pasquim. Eu acho que o Pasquim estava do lado certo da história. Eu acompanhei toda a trajetória política do Lula e eu achei que a gente tinha avançado muito na eleição que tinha o Lula de um lado e o Fernando Henrique do outro. Eu falei: ‘puxa vida, batalhar como a gente lutou para ter essas duas pessoas como candidatos. Nunca houve uma dupla tão sensacional no mundo’. Mas depois as circunstâncias me provaram que não era bem assim. Um foi para o meu lado e o outro foi para o outro lado, está aí junto com eles. Então a história é essa. Isso deixou meu lado muito magoado. Está cheio de gente que eu esperava que permanecesse do meu lado e que está nessa jogada aí. Eu tenho pouco tempo de atuação política, estou com 84 anos, acho que depois dos 90 anos você não vai ter nem disposição para discutir. Mas enquanto eu tiver, como diria o Camões: ‘Enquanto houver engenho e arte, eu vou estar em toda parte lutando pelo que eu acredito’. Estou aqui por que eu creio que o lado certo não aceita essa coisa do impeachment, por que tem outra coisa: a República só conhece um fenômeno único na história da República no Brasil, que foi o impeachment do Collor. Então, olha, demorou mais de meio século para a República tomar essa medida drástica, profunda e que exigia muita conversa, muito debate, para poder ela ser tomada, porque era inédita. Agora, poucos anos depois, eles vão inventar impeachment de novo? O que é isso cara? Impeachment não é fácil assim não, tem que ter muita justificativa, muita prova, não é uma coisa açodada. E eu gosto de contar também outro fenômeno único na história da República, coisa que nem a ditadura militar fez, que foi mudar a Constituição para eleger o presidente que está no poder, para reeleger. Isto é a maior ofensa que a República sofreu. Nem os ditadores tiveram coragem de se manter no poder estando no poder. Esses dois fenômenos não podem se repetir, esse impeachment não pode ser tão fácil. Então eu acho que a gente tem que estar muito atento e dizer: sem uma grande discussão, profunda, sem ouvir o povo, quer dizer, se ouvir o povo até que iam discutir um pouco, porque manifestação popular é perigosa. O pessoal que quer o impeachment está orgulhoso por que botou 6 milhões, 7 milhões de pessoas na rua. Mas simultaneamente a TV Globo botou 102 milhões de eleitores no BBB. Então você não pode confiar nessa manifestação popular. Então a gente tem que ter, se você é eleito para representar o povo, tem que ter a responsabilidade que te deram. 

Acha que estão tratando de modo frívolo a democracia e os direitos sociais que foram alcançados nos últimos anos com Lula, com Dilma?

Eu falei da minha felicidade de a eleição estar com o Fernando Henrique e o Lula, quer dizer, nunca na minha época houve uma eleição que dois adversários fossem tão qualificados. A única liderança criada durante a ditadura e o pensador brasileiro que todo mundo respeitava. Não são dois frívolos, eram duas pessoas muito categorizadas. E eu acho que o que a gente avançou, se consolidou no governo do Lula. Porque primeiro o Fernando Henrique, não se pode negar, ele deu uma organizada no poder. E deixou uma herança a ser aperfeiçoada, que o Lula aperfeiçoou. Um metalúrgico aperfeiçoou. E foi o primeiro presidente que assumiu o poder no Brasil que não achava que o anterior era terra arrasada ‘e vou começar…’ Todo mundo começou da estaca zero. O Lula, que é um dos fenômenos mais fantásticos da história do Brasil, compreendeu que ele precisava, ao assumir o poder, entender tudo o que está acontecendo. E teve a humildade de dizer: ‘eu não entendo tudo, eu sei como manejar, mas eu preciso saber quem é que entende de economia. E aí fez aquela brincadeirinha de trazer o Delfim para poder orientar ele e buscar o [Henrique] Meirelles. Quer dizer, isso é de um talento absurdo. E aí ele fez depois do Juscelino [Kubitschek], por outros motivos, ele fez o melhor governo da história política do Brasil, principalmente dos que eu pude acompanhar, porque foi o primeiro governo voltado para o povo, voltado realmente para o povo. Quando ele entregou o governo para a Dilma os nordestinos estavam voltando para o Nordeste. Eu estive lá, acompanhei tudo, tinha gente que nunca tinha visto uma nota de [R$] 100 nunca tinha comido um pão. Então a história é essa, é a história que vai ser contada.

E o impeachment?

Se cassarem ela, ela vai passar para a história como a Joana d’Arc, ela vai ser uma das maiores heroínas da história recente do Brasil. Eles não perdem por esperar. Eu não vou ver, mas pode escrever. Agora eu acho, nesse momento, que não vai ser fácil assim cassar ela não. Apesar desse açodamento – é uma coisa de uma leviandade danada -, provar que é legal, que é legal todo mundo sabe, está na Constituição. Mas não é legítimo. Faltam muitas circunstâncias para você usar essa legalidade, não é fácil assim não. Eu tenho esperança, eu acredito muito no futuro do Brasil. Eu passei a vida inteira pacientemente esperando isso e acho que a gente teve vários momentos ‘agora o Brasil mudou’. Quando cassaram o Collor, agora não vai ser fácil. Agora a gente está cheio de esperança, porque é o primeiro governo que não interferiu nos outros poderes. Por que as empreiteiras ficaram com essa folga? Porque ninguém ousava mexer com eles, por que o presidente ajeitava logo, rapidamente. Não vem dizer que não ajeitava não, por que não pegaram eles? E hoje vai ser difícil a gente parar de condenar poderoso. Mas se a gente perder essa liderança, eles vão voltar todos do mesmo jeito, mas a luta é essa.

Por que o governo Dilma deve continuar?

Eu não tenho partido. Não tenho nem nunca tive, eu não sou filiado a partido nenhum. Mas a gente, o meu lado tem que começar tudo da estaca zero. O PMDB tem um slogan: “A luta continua”. Aquele slogan foi eu que desenhei, o partido não ia chamar PMDB. Eu também interferi nisso, conversando com o Ulisses [Guimarães], com o Tancredo. Porque o negócio é o seguinte: quando a gente tirou o PMDB, a luta ia continuar, então eu falei: vamos botar “a luta continua”. Agora, nós não podemos usar esse slogan porque o PMDB provou que a luta não continua. Abandonaram o barco como os ratos fazem quando o navio afunda. Mamaram a vida inteira no poder, na hora que precisou dele mesmo, todo mundo saiu. Agora tem que ver, nem todo mundo saiu. O PT sempre foi uma mãe com o coração aberto para todo mundo, cada um com seu propósito. Agora as coisas ficaram mais claras, ficou provado que eles não prestam para nada, porque agora que era a hora da luta, de dar uma arrumada no País, eles fazem um papel desse? Então nós vamos ver, tem muitas circunstâncias novas para a gente saber o que vai acontecer. Não tem ninguém, não tem futurólogo nenhum aí que pode dizer. Eu espero que, como a história do Brasil foi feita para dar certo – que esse país historicamente não era para dar certo. É só ler os livros do Laurentino Gomes para a gente ver que não era para dar certo. E misteriosamente a gente está entre as doze, treze nações mais importantes do mundo, mais poderosas do mundo, mais respeitadas do mundo, apesar desse… É só ler ‘El País’ que você fica orgulhoso de ser brasileiro, porque a paixão deles pelo Brasil e pelo Lula é uma alegria. Então vamos ver o que acontece. Eu tenho muita esperança. O único defeito é eu estar com 84 anos e ver os resultados desse embate, vai ser difícil. E como eu acho que não dá para observar lá do infinito, eu espero que meus filhos usufruam esse país melhor. Você falou de a Dilma estar sendo atacada, estar sendo perseguida, inclusive, por ela ser mulher.

Como é que ela está reagindo a isso?

Eu estive com ela ontem, foi uma audiência informal. Eu fui conversar com ela e tive uma surpresa imensa. Ela é realmente uma fortaleza. O Lula está muito mais atordoado do que ela. Foi uma conversa muito saudável e a gente falou da viagem a Bulgária, que foi um momento muito feliz no governo dela, porque a Bulgária estava orgulhosa dela. O desfile que a gente fez do aeroporto até o palácio foi de carro aberto e a multidão estava na calçada, Sófia inteira: “Dilma, Dilma!” E a pronúncia direito, “Dilma, Dilma”. ‘Eu devo estar em Belo Horizonte’. Foi uma coisa emocionante. Então a conversa foi essa, eu fiquei encantado.

Uma palavra de apoio a ela:

Tem um livro do Rubem Braga que o título é “Uma brava mulher”. Outro dia eu li um negócio do Clóvis Rossi, eu fiquei muito preocupado. O sujeito que se refere a qualquer mulher do mundo com os adjetivos que ele usou, eu começo a duvidar um pouco dele. Isso não é conversa de homem. Nenhum homem pode ser tão indelicado com uma mulher dessa maneira. Então é o seguinte: tem uma coisa qualquer, uma forma de sentimento que não é bem inveja, mas que é uma falta de respeito, ninguém, meu Deus do céu, pode dizer uma má palavra para uma mulher com a biografia da Dilma. Aquela foto dela no julgamento que os juízes estão todos lá no fundo, um com a mão na cara, outro assim é emblemática. Ela é aquela pessoa que está ali. E ela é essa mulher que eu vi no gabinete enfrentando isso e lembrando a viagem que ela fez. Uma conversa em que ela dava exemplos de figuras do Proust. Daí você vai conversar literatura com ela, você vai levar um susto. Então ninguém vê a Dilma como ser humano, acham que ela é um motor. Ela é um ser humano fantástico! Por isso que naquela cerimônia lá no Rio – que estava o Niemeyer, estava o Chico, estava o Frei Betto, o Leonardo Boff, estava todo mundo -, quando eu fui chamado eu disse assim: “eu amo a Dilma”. Eu não teria ido com ela para a Bulgária, não. Eu acho que ela me chamou para ir porque eu disse que amava ela. Ela é uma figura histórica desse País. Ela vai passar para a história como uma figura inapagável da história brasileira.
“Eu fui contratada pelo PSDB em maio. Nós propusemos o processo em setembro. Recebi R$ 45 mil para fazer o parecer”. (advogada Janaína Paschoal, respondendo a questionamento de senadores na Comissão Especial do Impeachment no Senado na quinta-feira, 28/04/2016).