domingo, 27 de março de 2016

Você sabe o que faz um Celebrante?

Profissional realiza cerimônias, principalmente casamentos, de forma personalizada e com foco no ser humano. Entenda mais!

Com a mudança de hábitos na sociedade, as novas formas de união e até mesmo a economia, há uma forte tendência de casamentos serem realizados em espaços de eventos, principalmente pela dificuldade de deslocamento, grandes distâncias, segurança, e outros motivos. Todos esses fatores combinados abriram espaços para celebrações não religiosas (ou não totalmente). Hoje, é notável que as celebrações laicas estão crescendo a cada dia, pois são voltadas para o ser humano, para a história das pessoas envolvidas e não somente o casal, mas também, eventualmente, amigos e parentes que podem ter feito parte e mereçam ser citados durante a cerimônia. 

Em função desse novo cenário, surge o Celebrante, que é o profissional apto a realizar cerimônias, geralmente casamentos e bodas, de forma personalizada. O objetivo é que a cerimônia corresponda à história dos noivos, ressalte curiosidades e afinidades. O discurso realizado pelo celebrante pode ter um viés mais religioso ou neutro, falando apenas de amor, companheirismo, romantismo, etc. Esse tipo de profissional é muito contratado por diferentes tipos de casais: noivos de religiões diferentes, homoafetivos, divorciados/separados, que já têm vida em comum e decidem oficializar a união ou simplesmente casais que não querem um casamento no formato tradicional (cartório, igreja, festa) e desejam realizar uma cerimônia personalizada e diferente.

Respeitando a crença de todos os presentes na cerimônia, em seu trabalho, o Celebrante não aborda aspectos doutrinários de uma religião específica. Os discursos normalmente tratam da importância do relacionamento entre os seres humanos e da união romântica, destacando aspectos exclusivos e positivos de cada casal.

Crescente demanda

Já uma forte tendência nas principais capitais brasileiras, mas, ainda pouco conhecida em cidades do interior, essa profissão vem ganhando cada vez mais destaque justamente em função das mudanças sociais e culturais. Hoje, já existe uma demanda para esse tipo de serviço, que, aos poucos, vem crescendo. Ainda que haja uma incidência maior nos meses de Maio e Setembro, casamentos acontecem ao ano inteiro. De olho nesse mercado, muitas pessoas têm buscado profissionalização como celebrante e investindo nesse trabalho como uma nova carreira. É o caso de Iracema Nogueira, que depois de décadas trabalhando como publicitária, queria lançar-se ao um novo desafio. Ela relata que, durante toda sua vida profissional, teve a felicidade de se dedicar a atividades que lidavam com a emoção. Primeiramente, trabalhou como atriz, locutora e dubladora. Em seguida, passou a atuar em produções de cinema, produção de som para cinema e televisão, e, por último, como produtora de comercias para TV. "Em cada uma dessas etapas, o que sempre me encantou foi a possibilidade de colocar algo de mim, da minha alma, das minhas emoções", destaca.

Com vontade de explorar ainda mais o campo da emoção, Iracema decidiu buscar um novo tipo de trabalho, no qual pudesse colocar toda a sua sensibilidade aguçada. Ingressou então no mundo dos casamentos, buscou formação como cerimonialista e, mais recentemente, descobriu sua vocação para celebrar cerimônias. Novamente buscou treinamento e aprendizado junto aos Celebrantes mais experientes de São Paulo. Após muita leitura, pesquisas e dedicação, Iracema ganhou confiança para assumir, de corpo, alma e principalmente coração, a responsabilidade de celebrar casamentos. Hoje, já como celebrante atuante, Iracema tem direcionado seu trabalho à realização de cerimônias inesquecíveis, cuja lembrança acompanhará os noivos por toda a vida. 

Iracema revela que, antes tomar a decisão e assumir o compromisso de ser uma Celebrante, precisou passar por um processo de muita reflexão, pois tem total consciência da responsabilidade de seu trabalho: conduzir cerimônias de casamento com maestria. "O casamento é um rito de passagem muito especial. Muitas vezes é tido como o momento da maior importância na vida de um ser humano. Por isso, tem que ser único, inesquecível, e é aí que moram o meu maior desafio e motivação: fazer com que os noivos levem em suas memórias, pelo resto das suas vidas, a emoção daquele momento. E isso só é possível se eu colocar minha alma e meu coração ao contar a história deles", destaca. 

A profissional ainda ressalta que o surgimento e ascendência do trabalho de Celebrante não deve ser tido como uma ameaça ou competição às cerimônias tradicionais. “Nós celebrantes não queremos substituir as cerimônias religiosas já enraizadas em muitas famílias. Trabalhamos exclusivamente para atender uma demanda já existente, ou seja, uma parcela de casais que não se identificam com as celebrações tradicionais e desejam um casamento com o foco principal no ser humano, ou seja, na história do encontro de duas pessoas que decidiram compartilhar a vida”, explica.

Personalização

O trabalho de um Celebrante, obrigatoriamente, pela própria atividade, tem um tom pessoal, pois os resultados dependem de como o celebrante irá conduzir todo o processo, desde a “leitura”, que é feita a partir da história dos noivos, até a forma como o celebrante irá desenvolvê-la e contá-la durante a cerimônia. Ou seja, cada profissional imprime o seu próprio estilo e qualidades. Nesse sentido, ao procurar contratar o trabalho de um celebrante, além das experiências anteriores, os noivos precisam avaliar se o perfil de cada profissional combina com o estilo do tipo de cerimônia que visualizam. 

Iracema Nogueira tem um perfil menos formal do que o comumente encontrado na maioria dos celebrantes, e, com isso, cria cerimônias mais criativas e cativantes. No entanto, apesar de sua desenvoltura, não deixa de prezar por uma postura respeitosa e profundamente responsável em relação aos noivos e aos convidados. Responsabilidade e paixão para compreender, envolver-se, emocionar-se, escrever e contar a história de pessoas reais. Essas são as principais características de Iracema Nogueira como Celebrante. 

Número de casamentos no Brasil

Uma pesquisa da Fundação Seade, divulgada no final de 2015, revelou que mais de 280 mil pessoas se casaram no civil em 2013 no Estado de São Paulo, o maior número dos últimos 30 anos. Foram em média 768 novos matrimônios por dia. De acordo com a fundação, a maior facilidade para o divórcio, o estímulo aos casamentos coletivos estão entre as causas do aumento de casamentos. O reconhecimento da união estável de pessoas do mesmo sexo pelo Supremo Tribunal Federal, em 2011, é apontado como outro motivo importante. Entre os casamentos registrados em cartório, em 2013, de acordo com a fundação, 1.966 correspondiam a uniões homoafetivas, 0,7% do total. Nesta categoria, a maior parte dos casais é do sexo feminino (53,5%). O sexo masculino representa 46,5% das uniões. 

Já em 2014, segundo pesquisa realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil registrou 1.106.440 casamentos em 2014, o que representou um aumento de 5,1% em relação a 2013. Em números absolutos, isso representa 53.993 casamentos a mais de um ano para outro. O número de casamentos homoafetivos no País, em 2014, também aumentou em 31,2%. Foram 1.153 uniões homoafetivas a mais que em 2013. No total, os casamentos homoafetivos representaram 0,4% do total de casamentos efetuados no Brasil.

Dados referentes ao ano de 2015 ainda não foram divulgados pelos institutos de pesquisa.

Contatos
Iracema Nogueira Celebrante
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Assessoria de imprensa Celebrante Iracema Nogueira
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sexta-feira, 25 de março de 2016

STF deve barrar impeachment sem crime de responsabilidade

ATUALIZADO EM 24/03/2016 - 18:51

do Empório do Direito

Por Alexandre Gustavo Melo Franco de Moraes Bahia, Marcelo Andrade Cattoni de Oliveira e Paulo Roberto Iotti Vecchiatti

Em meio ao turbilhão em que se encontra o país em razão de protestos sociais contra e a favor do Governo Federal, a questão jurídica que envolve o processo de impeachment tem ficado em segundo plano. Contudo, uma questão simplesmente fundamental tem sido ignorada em todos os debates acerca do tema, que mais se transformaram em “guerra de opinião” entre duas torcidas organizadas, a favorável e a contrária à destituição da Presidente da República. Trata-se da diferença fundamental entre Presidencialismo e Parlamentarismo, que está na essência (na natureza jurídica) do instituto do impeachment.[1]

No Presidencialismo, as figuras de Chefe de Governo e Chefe de Estado encontram-se unificadas na mesma pessoa, enquanto no Parlamentarismo tais funções são exercidas por diferentes pessoas. O(A) Chefe de Governo parlamentarista é quem exerce as funções equivalentes ao(à) Presidente da República no presidencialismo no tocante às atribuições deste na condução da política e da Administração Pública. Aqui entra a diferença fundamental entre ditos regimes de governo, a saber, a forma em que pode ser destituído(a) o(a) Chefe de Governo.

No Parlamentarismo, temos o instituto do voto de desconfiança, pelo qual o(a) Primeiro(a) Ministro(a) pode ser derrubado(a) apenas pela perda de confiança do Parlamento. Ou seja, perdido o apoio da base aliada ou em razão de uma grave crise política, pode o Parlamento derrubar o(a) Chefe de Governo, para que outra pessoa exerça essa função (a forma de escolha varia de acordo com a legislação de cada país). E é importante assinalar: aprovada a desconfiança, não só cai o Primeiro Ministro, como o próprio Parlamento, para que novas eleições sejam realizadas. Já no Presidencialismo, temos o instituto do impeachment, que não é sinônimo de voto de desconfiança e isso por uma simples razão: exige-se que o(a) Presidente tenha cometido algum crime de responsabilidade para que ele(a) possa ser destituído(a) da Presidência da República – e porque neste caso se trata de um “crime” e não de mera questão política, o(a) Presidente é retirado de seu cargo e assume o Vice-presidente, além do que os membros do Parlamento permanecem com seus mandatos intocados. 

Pedem renúncia para evitar constrangimento de me tirar de forma ilegal e criminosa, diz Dilma

Sexta-feira, 25 de março de 2016 às 10:00


Em conversa com correspondentes de jornais estrangeiros, a presidenta Dilma garantiu que nada foi encontrado sobre ela que justifique a cassação de seu mandato conquistado nas urnas e reforçou estar sendo vítima de um “golpe constitucional”. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

A presidenta Dilma Rousseff concedeu, nesta quinta-feira (24), uma longa entrevista a jornalistas de veículos de comunicação estrangeiros, no Palácio do Planalto, em Brasília. Em mais de 1h40 de conversa, Dilma voltou a refutar veementemente a possibilidade de renunciar ao cargo e reforçou estar sendo vítima de uma tentativa de “golpe constitucional”, por meio do processo de impeachment em análise na Câmara dos Deputados –que, segundo ela, começou como uma estratégia do presidente da Casa, Eduardo Cunha, para “ocultar os seus próprios problemas”.

Depois de um ano e quatro meses sendo investigada “devida e indevidamente”, Dilma garantiu que nada foi encontrado que justifique a cassação de seu mandato conquistado nas urnas. “Podem me virar dos avessos. E é esse o problema. Por que eles pedem que eu renuncie? Por que eu sou mulher, frágil? Eu não sou frágil, não foi isso a minha vida. Sabe por que pedem que eu renuncie? Para evitar o imenso constrangimento de tirar uma presidenta eleita, de forma indevida, de forma ilegal, de forma criminosa”, afirmou.

Presa aos 19 anos quando militava contra a ditadura militar, a presidenta lembrou da tortura para assegurar que não desistirá da luta nesse momento de tensão do País. “Lutei naquela época em condições muito mais difíceis. Vou lutar agora nas condições extremamente favoráveis. É a democracia do meu País, é ela que me dá força. Então, eu não renuncio, não. Para me tirar daqui vão ter que provar que eu tenho de sair”, garantiu.

Dilma argumentou aos jornalistas que um impeachment sem provas do cometimento de crime de responsabilidade representaria uma ruptura da ordem democrática, com consequências drásticas para o futuro do País. Ela lembrou que as chamadas “pedaladas fiscais”, operações orçamentárias para a manutenção de programas sociais, foram utilizadas por outros presidentes, sem que houvesse qualquer questionamento, e que as contas do governo referentes a 2015 ainda não foram sequer entregues para análise. “Esse golpe, que rompe a normalidade democrática, ele pode não ter consequências imediatas, mas ele deixará uma marca na vida política brasileira, forte. Por isso nós temos de reagir, por isso nós temos de impedir, e por isso entendo a palavra de ordem do pessoal que me apoia: ‘Não vai ter golpe’”, acrescentou.

A presidenta também voltou a criticar a gravação e vazamento pela Justiça Federal no Paraná de conversas suas com o ex-presidente Lula, que deveriam ter sido remetidas para o Supremo Tribunal Federal (STF), único órgão competente para determinar investigação contra a Presidência da República. Para ela, a violação ilegal da privacidade atenta contra o Estado de Direito. “A democracia tem isso, você não pode sacrificar um pedaço dela e achar que ela fica inteira”, pontuou.

Dilma também demonstrou preocupação com a atuação politizada e partidarizada de alguns juízes.“Juiz tem de ser imparcial; juiz não pode julgar com as paixões políticas, por isso ele é vitalício, por isso ele não pode ser demitido pelo governo, ele não pode pressionado pelo governo, ele tem autonomia. É isso que diz a nossa Constituição”, observou.

Lula no governo e pacto por reformas
Em outro trecho da conversa com os jornalistas, a presidenta Dilma voltou a defender a nomeação do ex-presidente Lula para o cargo de ministro-chefe da Casa Civil, e acusou aqueles que tentam impedir sua posse de agir para evitar o fortalecimento do governo. Ela garantiu, no entanto, que nenhum esforço será suficiente para evitar que Lula auxilie na estabilização política e econômica do País: “Ou ele vem como ministro, ou ele vem como meu assessor, isso eles não podem impedir. Ou ele vem de um jeito, ou vem do outro. Nós traremos o presidente Lula para nos ajudar no governo”.

Durante a conversa, Dilma defendeu a tolerância com as posições divergentes em relação ao cenário político do País. “A gente tem de escutar as ruas, mas escutar as ruas não significa – e não pode significar – usar as ruas para estimular a violência, para estimular a restrição à livre manifestação e ao livre pensamento das pessoas”. Foto: Roberto Stuckert Filho/PR

Sobre as especulações de que a nomeação de Lula teria o objetivo de lhe garantir imunidade contra investigações, a presidenta foi enfática. “Supor que o presidente Lula viria aqui para se proteger é uma coisa que só pode passar na cabeça de alguém que queira criar problema onde não tem. Mas que proteção estranha! Porque um ministro não está protegido de investigação. Pelo contrário, ele é investigado pela Suprema Corte, diretamente se usa a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal. Tanto é assim que a investigação do presidente da Câmara, que tem foro especializado, é uma investigação que ninguém pode questionar, ou pode?”, questionou, lembrando que como ministro, além de continuar sendo investigado, Lula perderia o direito de recorrer a instâncias superiores.

Dilma reforçou que conta com a habilidade de articulação política e a experiência administrativa do ex-presidente para chegar, após a superação da crise, “sem ruptura democrática”, a um pacto pela reforma política. “Do jeito que está o sistema político brasileiro, nós vamos ter sistemáticas crises”, sentenciou a presidenta. “Em alguns países você precisa de três partidos para a governabilidade, certo? Aqui, no Brasil, eu acho que precisa de três, no máximo, cinco. Hoje no Brasil nós temos de ter 14, 13, 12. O sistema político brasileiro não corresponde às necessidades e à complexidade da economia e da sociedade brasileira”.

Para a presidenta, outras reformas que o Brasil necessita, como a reforma tributária, dependem inicialmente desse pacto político, que restabeleça a confiança e evite que disputas partidárias levem ao agravamento da situação econômica, como tem ocorrido desde o ano passado como as chamadas “pautas bomba” no Congresso.

Ainda assim, segundo Dilma, apesar da confluência de fatores que prejudicou o País nos últimos anos, como o fim do ciclo de valorização das commodities, a queda do preço do petróleo e a seca em diversas regiões do País, a economia brasileira começa a dar sinais de recuperação. “Nós saímos de um déficit na balança comercial de quatro [US$ 4 bilhões] e fomos para um superávit de 19,6 [US$ 19,6 bilhões]. E nós já estamos, em torno de 30 [US$ 30 bilhões] de superávit anualizado neste mês. Então, o Brasil começou a se mexer. Ele vai se mexer, ele vai continuar”, disse, antevendo que a crise econômica pode ser superada até o fim do ano, caso haja uma distensão no cenário político.

Manifestações, tolerância e inclusão social
Outro tópico que foi alvo de preocupação de Dilma Rousseff foi o cenário de manifestações pró e contra o governo e a radicalização de opiniões políticas no País. A presidenta defendeu a liberdade de expressão e manifestação, mas alertou para a necessidade de tolerância com as posições divergentes. “A gente tem de escutar as ruas, mas escutar as ruas não significa –e não pode significar– usar as ruas para estimular a violência, para estimular a restrição à livre manifestação e ao livre pensamento das pessoas”, disse Dilma, adicionando: “Você não pode utilizar manifestação na porta da casa das pessoas para constrangê-las. Não se pode fazer isso com ministros, não se pode fazer isso com deputados. Isso está errado, isso não é método democrático. Isso, de fato, é método fascista de atuação”, criticou.

“Nós não somos um povo intolerante. Você olha que nós temos um tempo grande de vida política, partidária, no País. Você nunca teve um momento de tamanha intolerância, de tamanha estigmatização de pessoas”.

No entanto, a presidenta disse acreditar que as bases para a paz social no Brasil existem. “Elas não estão rompidas. O Brasil não é um país em insurreição”, afirmou. Para Dilma, esse processo passa pela continuidade das políticas de inclusão social e redução das desigualdades. “Mesmo se você considera que o fim da miséria é só um começo. Quando a pessoa sai da miséria, ela quer mais coisas, ela quer melhores serviços, ela quer acesso a bens culturais, com toda razão, porque é o que nós queremos. Por que eles vão ser diferentes? Só por que saíram da pobreza? A base do país não é uma base explosiva, não tem uma diferença religiosa. Nós não temos conflito étnico, nós somos um país que sempre cultuou a paz”, analisou.

quarta-feira, 23 de março de 2016

Por que o Brasil vive um golpe de Estado (Renato Rovai)

Se um dia você encontrar alguém que se diga golpista, não perca tempo. Tire fotos com ele, organize um evento, divulgue aos quatro cantos. É mais fácil encontrar uma cachoeira no deserto do que um golpista na face da terra.

Os golpistas são sempre outra coisa.

Pinochet nunca admitiu ser golpista.

Ele se dizia um democrata que derrotou a ditadura comunista de Allende e lutou contra terroristas.

Em nome daquilo que chamava democracia, Pinochet matou aproximadamente 4 mil pessoas e torturou 40 mil.

O Chile chora até hoje Vitor Jarra e Isabel Parra, entre tantos outros que foram vítimas daquela assassino.

Mas a queda e a morte de Allende foram saudadas em editorial de O Estado de S. Paulo, como também o foi o golpe de 64.

Mas Pinochet é só um deles.

Franco também nunca se assumiu golpista.

O general derrubou o governo da Frente Popular de Esquerda, eleito em 1936, e transformou a Espanha num caos por décadas.

Uma das obras primas de Picasso é o Guernica, que retrata muito do que foi aquela Guerra Civil.

Mas, claro, Franco não foi um golpista.

Ele era um democrata que tirou o país da mão dos comunistas e dos terroristas e que levou à morte 400 mil espanhóis.

Sim, podemos falar do Brasil.

Os golpistas daqui, tanto em 54 como em 64, sempre se apresentaram como salvadores da pátria do comunismo e da corrupção. E defensores da democracia.

Levaram Getúlio ao suicídio e derrubaram Jango, com os mesmos argumentos.

E para isso sempre fizeram tudo do mesmo jeito.

Sempre tiveram apoio da OAB, mesmo tendo boa parte advogados se manifestando contra a posição da entidade.

Sempre contaram com os principais veículos de comunicação.

Sempre tiveram maioria no Congresso.

Sempre invadiram sindicatos.

Sempre atacaram sedes de partidos políticos.

Sempre tiverem milhares e milhares nas ruas para defendê-los.

Sempre atacaram estudantes e universidades que ousassem resistir, como fizeram agora na PUC.

Sempre tiverem a polícia ao lado deles.

Sempre tiverem apoio de governadores, como Carlos Lacerda e Ademar de Barros. E agora como Geraldo Alckmin.

Sempre tiveram artistas e pseudo-intelectuais para defendê-los no jogo da opinião pública, mesmo sendo ampla minoria neste setor.

Sempre tiveram apoio de empresários e de entidades como a Fiesp.

Sempre tiveram boa parte do judiciário.

Sempre tiveram apoio dos EUA e de países ditos democráticos que querem o Brasil como um grande quintal.

Sempre tiveram bandidos botando terror nas ruas e ameaçando quem pensasse diferente deles.

Sempre falaram em corrupção.

Sempre perseguiram lideranças populares, principalmente as que pudessem derrotá-los em eleições.

Eles são os mesmos de sempre.

São golpistas.

Mas eles vão sempre dizer que não.

Como lobos, se apresentam cordeiros.

E por isso um golpe você descobre nos detalhes e não na declaração de quem o realiza.

O Brasil vive hoje um golpe de estado.

golpistas / Beto Richa

Governador do Paraná, Beto Richa (PSDB), integra o listão da propina da Odebrecht e é citado pela terceira vez em casos de corrupção; estaria o tucano, por isso, habilitado a ganhar música no programa global Fantástico; governador do PSDB teria amealhado junto a Odebrecht R$ 200 mil em 24 de setembro de 2010, sem prestação de contas ao TSE; Richa já é réu no Superior Tribunal de Justiça (STJ), que autorizou investigação de cobrança de propina na Receita Estadual do Paraná (dinheiro teria abastecido reeleição); tucano também tem governo envolvido no roubo de recursos que seriam destinados à construção de escolas (Operação Quadro Negro); governador Beto Richa é um dos entusiastas do golpe contra o mandato da presidente Dilma Rousseff. - Esmael Moraes

Texto de Magna Novais

"Então, estudei muito, o bastante para saber que quando as caravelas por aqui chegaram, trouxeram todo o tipo de bandido para colonizar o Brasil. Depois, fatiaram o país e criaram as capitanias hereditárias, algumas vivas até hoje na mão da família Sarney. 

Em seguida, um REI, fugindo de Napoleão Bonaparte, abandona Portugal à própria sorte e vem ser imperador ´por essas bandas, fundando o Banco do Brasil com dinheiro roubado dos cofres de lá.

Estudei o suficiente para saber que no século XVIII enforcaram e esquartejaram um cara que lutava por liberdade e que foi condenado através do que chamaríamos hoje de delação premiada. Sei também de um outro cara, que em Canudos quis recomeçar com sua comunidade, implantou um sistema autossuficiente onde todos podiam plantar, colher, trabalhar e que as tropas da recém criada república dizimaram, não sobrou uma única pessoa viva em canudos. 

Estudei o bastante também para saber que a abolição da escravatura não foi nada além de uma jogada de mercado, influenciada e financiada pelos cofres ingleses e que a proclamação da república não foi um ato de reconhecimento do clamor do povo, mas uma jogada de gabinete que levou os militares ao poder pela primeira vez. Não esqueçamos que nosso primeiro presidente da república foi um marechal. 

Depois disso, sei também que até 1930, paulistas e mineiros se alternavam no poder, numa clara afronta à democracia até que Getúlio Vargas toma o poder, não nos levando a uma democracia, mas a uma ditadura até 1945 quando finalmente as pessoas puderam votar e o elegeram presidente, e ele acabou morrendo sendo chamado de o "maior corrupto da história" e até hoje a História se divide entre os que acreditam e os que não acreditam nisso. 

Em seguida João Goulart, que lutava pela reforma agrária, reforma política, melhores condições de trabalho, defesa do 13º salário, foi deposto pelos militares como o "maior corrupto da História do Brasil. Então mergulhamos em 21 anos de ditadura, de mortos, desaparecidos políticos, famílias dizimadas pela fome, falta de comida no super pra comprar, inflação de 83% ao mês, fim das liberdades políticas para o cidadão, corrupção na construção da Transamazônica, do Riocentro, desvios já na Petrobrás, concessões de rádio e TV para algumas poucas famílias, entre elas os Marinho, enriquecimento ilícito de empresários, financiamento de golpes no Chile e no Uruguai através de bancos estadunidenses......dinheiro na mala.....e por aí vai..... 

Com o fim da ditadura, vieram os gatilhos do Sarney e então enfrentávamos inflação entre 70 e 73% ao mês. Até que chegou o "caçador de marajás" que renunciou sob denúncias de caixa 2 na campanha, tráfico de influência e cassação da poupança. 

Chega a vez do intelectual governar por 8 anos o país e vieram as privatizações, 100 bilhões desviados da Petrobrás e que segundo o seu herói juiz Moro, "não vem ao caso". A venda da Vale do Rio Doce para a Samarco sob fortes indícios de irregularidades que nunca foram investigadas, que foram arquivadas. 

Sei também, através de meus estudos, que só em 1995, governo FHC, 5.000.000 de nordestinos morreram de fome, mas tudo bem, é no nordeste né? Por isso Betinho saiu pelo Brasil na campanha Brasil sem fome. Internacionalmente, tinha governante que achava que o Brasil ficava na África por sermos semelhantes aos países mais pobres daquele continente. E ninguém bateu panela por isso. 

Ninguém bate panela pelos 55.000 jovens negros mortos pela polícia todos os anos, ninguém bate panelas pelo fim do estupro das mulheres (1 a cada 13h no Brasil), ninguém bate panela pelos índios mortos no Pará e no Mato Grosso pelos latifundiários do gado, ninguém bate panela pedindo e prisão de Aécio Neves, já citado na lava jato 4 vezes em diferentes delações. Ninguém bate panela pedindo a aceleração do processo de afastamento de Eduardo Cunha da câmara de deputados. Ninguém bate panela pela prisão de Paulo Maluf. Ninguém vai pra rua pedir justiça pelo pedreiro ou pela doméstica negros mortos covardemente pela polícia. 

Batem panela e vão para a rua contra as cotas que colocaram os negros em ambiente branco, nas universidades. Batem panela contra os 36.000.000 de brasileiros que saíram da extrema pobreza, tirando o Brasil do mapa da fome mundial. Batem panela contra o Prouni, batem panela para o Luz para Todos que levou energia elétrica para o sertão, batem panela contra a transposição do São Francisco, que começou este ano a levar água para os confins do nordeste. Batem panela para o Minha Casa Minha Vida, que deu um pouco de moradia digna para quem vivia em condições subumanas. Batem panela para o crédito rural que baixou o juro para o pequeno agricultor. Batem panela para os 4 anos de IPI 0% na compra de automóveis. Batem panela para o Ciência sem Fronteiras que está levando nossos universitários para complementarem seus estudos nas melhores universidades do mundo. Batem panela para a Polícia Federal livre para investigar, e só por isso Lula está sendo investigado. 

Enfim, não defendo a pessoa do Lula, até porque NADA foi provado, TUDO ainda está sendo investigado e se for comprovado ele será sim julgado, independente da instância. Defendo tudo o que a massa de manobra da Globo e da elite raivosa está querendo comprometer. Defendo um projeto de país livre do FMI, um projeto que tem muito a avançar, porque ainda há muito o que fazer, na segurança, educação, saúde que estão sim, muito precárias, mas que se a gente não tivesse perdendo tempo na frente do Jornal Nacional, poderíamos estar lutando para arrumar. Porque um executivo que tenta trabalhar com um legislativo podre como o nosso é como uma mãe que trabalha o dia inteiro pros filhos jogarem a comida da panela fora só para bater no fundo. 

Não confundam as coisas. Não defendo bandido, mas também não lambo bota de uma elite que não odeia, ela terceiriza o ódio e é isso que vemos agora. Tem gente que sai de camiseta vermelha na rua e apanha dos que vestem a camiseta da corrupta CBF, enquanto os que não aguentam mais ficar longe do poder estão sentadinhos na frente do Bonner tomando seu scoot 12 anos. Sim, a casa grande surta quando a senzala aprende a ler, e a gente aprendeu, e se tivermos que cair, vamos cair lutando, porque sabemos a diferença entre sermos os coitadinhos e os protagonistas da História. 

Não aceitamos mais as migalhas dos caridosos, queremos justiça social e é isso que os poderosos não estão aguentando, pobre protagonizando sua história. Pobre em aeroporto, pobre comprando carro, pobre comprando casa, filho de pedreiro virando médico, pobre indo a restaurante.....etc.....como disse a socialite Danuza coxinha Leão "Não tem mais graça ir a Paris porque agora você encontra o porteiro do prédio lá".....e isso incomoda, e muito. Sim, eu estudei, e gostaria de ter dois cérebros, para estudar ainda mais!!!"

terça-feira, 22 de março de 2016

O papel da midia no golpe, por Glenn Greenwald

ATUALIZADO EM 22/03/2016 - 13:34


Por Glenn Greenwald, Andrew Fishman, David Miranda

Do Intercept


AS MÚLTIPLAS E IMPRESSIONANTES crises que assombram o Brasil agora atraem substancialmente a atenção da mídia internacional. O que é compreensível, já que o Brasil é o quinto país mais populoso do mundo e a oitava economia do mundo. Sua segunda maior cidade, o Rio de Janeiro, é a sede das Olimpíadas deste ano. Porém, boa parte dessa cobertura internacional é repetidora do discurso que vem das fontes midiáticas homogeneizadas, anti-democráticas e mantidas por oligarquias no Brasil e, como tal, essa informação é enviesada, pouco precisa e incompleta, especialmente quando vem daqueles profissionais com pouca familiaridade com o país (mas hávários repórteres internacionais que trabalham no Brasil fazendo um ótimo trabalho).

Seria difícil exagerar quando se afirma a gravidade da situação no Brasil em várias esferas. O trecho a seguir, publicado ontem por Simon Romero, o correspondente do The New York Times no Brasil, evidencia o nível de calamidade da situação:

O Brasil está enfrentando sua pior crise econômica das últimas décadas. Um enorme esquema de corrupção tem prejudicado a empresa pública petrolífera nacional. A epidemia de Zika espalhadesespero ao longo da região Nordeste. E, pouco antes de hordas de estrangeiros vierem ao país para as Olimpíadas, o governo luta pela sobrevivência com quase todas as frentes do sistema político sob uma nuvem de escândalo.

A extraordinária crise política brasileira apresenta algumas semelhanças com o caos liderado por Trump nos EUA: um circo sui-generis, fora de controle, gerando instabilidade e libertando forças sombrias, com um resultado positivo quase impossível de se imaginar. A antes remota possibilidade de impeachment da presidenta Dilma Rousseff parece, agora, provável.

Porém, uma diferença significante em relação aos EUA é que a agitação no Brasil não se limita a apenas um político. O contrário é verdade, conforme Romero comenta: “quase todas as frentes do sistema político estão sob uma nuvem de escândalo”. O que inclui não apenas o PT, partido trabalhista de centro-esquerda da presidenta – atravessado por casos sérios de corrupção – mas também a grande maioria dos grupos políticos e econômicos de centro e de direita que agem para destruir o PT e que estão afundando em uma quantidade ao menos igual de criminalidade. Em outras palavras, o PT é, sim, profundamente corrupto e banhado em escândalos, mas, virtualmente, assim também são todos os grupos políticos trabalhando para minar o partido e obter o poder que foi democraticamente entregue a ele.

Quando a mídia internacional fala sobre o Brasil, ela tem focado nos crescentes protestos de rua que pedem o impeachment de Rousseff. Essas fontes midiáticas tipicamente mostram os protestos de forma idealizada, com uma certa adoração: como movimentos de massa inspiradores que se levantam contra um regime corrupto. Ontem, Chuck Todd, da NBC News, retuitou Ian Bremmer (do Eurasia Group) descrevendo os protestos anti-Dilma Rousseff como “O Povo contra A Presidente” – um tema fabricado, condizente com o que é noticiado por grupos mídiáticos brasileiros anti-governo, como a Globo:

Essa narrativa é, no mínimo, uma simplificação radical do que está acontecendo e, mais provavelmente, uma propaganda feita para minar um partido de esquerda há muito mal visto pelas elites políticas dos EUA. A caracterização dos protestos ignora o contexto histórico da política no Brasil e, mais importante, uma série de questões críticas: quem está por trás dos protestos, quão representativos eles são em relação à população brasileira e quais são seus verdadeiros interesses?

A ATUAL VERSÃO da democracia no Brasil é bastante jovem. Em 1964, o governo de esquerda democraticamente eleito foi derrubado por um golpe militar. Oficiais norteamericanos negaram envolvimento tanto publicamente quanto perante o Congresso, mas – nem precisaria ser dito –documentos e registros posteriormenterevelados provaram que os EUA apoiaram diretamente o golpe e ajudaram em seu planejamento.

Os 21 anos de ditadura militar de direita pró-EUA que se seguiram foram brutais e tirânicos, especializando-se em técnicas de tortura usadas contra dissidentes políticos que eram ensinadas pelos EUA e pelo Reino Unido. Um relatório da Comissão da Verdade, publicado em 2014, revelou que ambos os países “treinaram interrogadores brasileiros em técnicas de tortura”. Dentre as vítimas, estava Rousseff, então guerrilheira da esquerda democrata, presa e torturada pelo regime militar nos anos 70.

O golpe em si e a ditadura que se seguiu foram apoiados pelas oligarquias regionais e por suas grandes redes midiáticas, lideradas pela Globo, a qual – de forma notável – apresentou o golpe de 1964 como uma nobre derrota de um governo esquerdista corrupto (soa familiar?). Tanto o golpe quanto o regime ditatorial foram apoiados também pela extravagante (e absurdamente branca) elite econômica do país, além de sua pequena classe média. Como opositores da democracia geralmente fazem, as classes altas viam a ditadura como uma proteção contra as massas de população pobre, composta majoritariamente por pessoas negras e pardas. Conforme o jornalThe Guardian publicou sobre informações da Comissão da Verdade: “Assim como em toda a América Latina dos anos 60 e 70, a elite e a classe média se alinharam com o regime militar para afastar o que elas viam como uma ameaça comunista”.

Essas divisões severas de classe e raça no Brasil continuam como dinâmica dominante. Segundo a BBC, em 2014, baseada em vários estudos: “o Brasil apresenta um dos maiores níveis de desigualdade de renda do mundo”. O editor-chefe do Americas Quarterly, Brian Winter, em reportagem sobre os protestos, escreveu nessa semana: “O abismo entre ricos e pobres continua sendo o fato central da vida no Brasil – e nesses protestos, isso não é diferente”. Se você quiser entender qualquer coisa sobre a atual crise política no Brasil, é crucial entender também o que Winter quer dizer com essa afirmação.

O PARTIDO DE DILMA, PT, foi fundado em 1980 como um partido socialista de esquerda clássica. A fim de melhorar seu apelo nacional, o partido moderou seus dogmas socialistas e se tornou, gradualmente, mais próximo dos chamados social-democratas da Europa. Agora,existem partidos populares à sua esquerda. De fato, Dilma, por vontade própria ou não,defendeu medidas de austeridade para resolver problemas econômicos e passar confiança aos mercados estrangeiros, e justamente nessa semana assinou uma draconiana lei “anti-terrorismo”. Ainda assim, o PT se mantém na centro-esquerda do espectro político brasileiro, e seus apoiadores são, surpreendentemente, as minorias raciais e classes pobres. Enquanto no poder, o partido promoveu reformas sociais e econômicas que levaram benefícios governamentais e oportunidades para tirar milhões de brasileiros da pobreza.

O Partido dos Trabalhadores está na presidência há 14 anos: desde 2002. Sua popularidade foi um subproduto do antecessor carismático de Dilma, Luis Inácio Lula da Silva (universalmente conhecido como “Lula”). A ascensão de Lula à presidência foi um símbolo poderoso da luta da classe pobre no Brasil durante a democracia: um trabalhador e líder sindical, de uma família pobre, que deixou a escola na segunda série e não sabia ler até os 10 anos, preso pela ditadura por atividade na luta sindical. O ex-presidente foi, e ainda é, motivo de riso para elites brasileiras por meio de um tom classista no discurso sobre seu jargão trabalhista e sua forma de falar. 

Lula and Dilma campaign together in 2010 election (Photo: Eraldo Peres/AP)

Depois de três tentativas infrutíferas de chegar à presidência, Lula provou ser uma força política imbatível. Eleito em 2002 e reeleito em 2006, ele deixou o cargo com taxas de aprovação tão altas que foi capaz de garantir a eleição de Dilma, sua sucessora, antes desconhecida pela população, e que foi reeleita em 2014. Há muito tempo se cogita que Lula – um político que se opõe publicamente a medidas de austeridade – pretende concorrer novamente para a presidência em 2018, depois de completo o segundo mandato de Dilma. Forças anti-PT se sentem petrificadas com a ideia de que Lula vença novamente.

Embora a classe oligárquica da nação tenha usado o PSDB, partido de centro-direita, de forma bem sucedida como um contrapeso, o partido foi impotente para derrotar o PT em quatro eleições presidenciais consecutivas. O voto é obrigatório, e os cidadãos de baixa renda garantiram as vitórias do PT.

A corrupção entre a classe política Brasileira – incluindo o alto escalão do PT – é real e substancial. Mas os plutocratas brasileiros, a mídia, e as classes altas e médias estão explorando essa corrupção para atingir o que eles não conseguiram por anos de forma democrática: remover o PT do poder.

Ao contrário da descrição romantizada e mal informada (para dizer o mínimo) de Chuck Todd e Ian Bremmer de protestos sendo levantados “pelo Povo”, estes são, na verdade, incitados pela mídia corporativa intensamente concentrada, homogeneizada e poderosa, e compostos por (não exclusivamente, mas majoritariamente) pela parte mais rica e branca dos cidadãos, que por muito tempo guardaram rancor contra o PT e contra qualquer programa social que combate a pobreza.

A mídia corporativa brasileira age como os verdadeiros organizadores dos protestos e como relações-públicas dos partidos de oposição. Os perfis no Twitter de alguns dos repórteres mais influentes (e ricos) da Rede Globo contém incessantes agitações anti-PT. Quando uma gravação de escuta telefônica de uma conversa entre Dilma e Lula vazou essa semana, o programa jornalístico mais influente da Globo, o Jornal Nacional, fez seus âncoras relerem teatralmente o diálogo, de forma tão melodramática e em tom de fofoca, que se parecia literalmente com uma novela, muito distante de um jornal, e foram ridicularizados nas redes por isso. Durante meses, as quatro principais revistas jornalísticas do Brasil dedicaram capa após acapa a ataques inflamados contra Dilma e Lula, geralmente mostrando fotos dramáticas de um ou de outro, sempre com uma narrativa impactantemente unificada.

Para se ter uma noção do quão central é o papel da grande mídia na incitação dos protestos: considere o papel da Fox News na promoção dosprotestos do Tea Party. Agora, imagine o que esses protestos seriam se não fosse apenas a Fox, mas também a ABC, NBC, CBS, a revista Time, o New York Times e o Huffington Post, todos apoiando o movimento do Tea Party.Isso é o que está acontecendo no Brasil: as maiores redes são controladas por um pequeno número de famílias, virtualmente todas veementemente opostas ao PT e cujos veículos de comunicação se uniram para alimentar esses protestos.

Resumindo, os interesses mercadológicos representados por esses veículos midiáticos são quase que totalmente pró-impeachment e estão ligados à história da ditadura militar. Segundo afirma Stephanie Nolen, correspondente no Rio para o canadense Globe and Mail: “Está claro que a maior parte das instituições do país estão alinhadas contra a presidente”.

De forma simples, essa é uma campanha para subverter as conquistas democráticas brasileiras por grupos que por muito tempo odiaram os resultados de eleições democráticas, marchando de forma enganadora sob uma bandeira anti-corrupção: bastante similar ao golpe de 1964. De fato, muitos na direita do Brasil anseiam por uma restauração da ditadura, e grupos nesses protestos “anti-corrupção” pediram abertamente pelo fim da democracia.

Nada aqui é uma defesa do PT. Tanto por causa da corrupção generalizada quanto pelas dificuldades econômicas, Dilma e PT estão intensamente impopulares entre todas as classes e grupos, inclusive entre a base trabalhadora do partido. Mas os protestos de rua – inegavelmente grandes e inflamados – são direcionados por aqueles que tradicionalmente apresentam hostilidade contra o PT. O número de pessoas participando desses protestos – enquanto milhões – é muito pequeno em relação aos votos que reelegeram Dilma (54 milhões). Em uma democracia, governos são eleitos pelo voto, não por demonstrações de oposição na rua – particularmente quando os manifestantes vem de um segmento social relativamente limitado.

Como Winter informou: “No ultimo domingo, quando mais de um milhão de pessoas foram às ruas, pesquisas de opinião indicaram que mais uma vez a multidão era significantemente mais rica, mais branca e com maior educação formal do que a média dos brasileiros”. Nolen afirmou algo similar: “A meia-dúzia de grandes demonstrações de movimentos anti-corrupção no passado foram dominadas por manifestantes brancos e de classes altas, que tendem a apoiar a oposição representada pelo PSDB e a ter pouca apreciação pelo partido trabalhista de Rousseff”.



No último final de semana, quando uma grande massa de protestos anti-Dilma tomou diversas cidades brasileiras, uma fotografia de uma família se tornou viral, um símbolo do que esses protestos realmente são. Mostrava um casal branco e rico vestidos com adereços anti-Dilma que caminhava com seu cachorro de raça, acompanhados pela babá negra – vestindo o uniforme branco que muitas famílias brasileiras ricas exigem que suas empregadas domésticas usem – empurrando um carrinho de bebê com os dois filhos do casal.

Como Nolen apontou, essa foto se tornou uma verdadeira síntese, da essência altamente ideológica desses protestos: “Brasileiros, que são hábeis e rápidos com memes, repostaram a foto com centenas de legendas sarcásticas, como ‘Apressa o passo aí, Maria, nós temos que ir ao protesto contra o governo que nos fez pagar um salário mínimo para você’”.


ACREDITAR QUE AS FIGURAS políticas agindo para o impeachment de Dilma estão sendo motivadas por uma autêntica cruzada anti-corrupção requer extrema ingenuidade ou ignorância. Para começar, as partes que seriam favorecidas pelo impeachment da Dilma estão pelo menos tão envolvidas quanto ela por escândalos de corrupção. Na maioria dos casos, até mais.

Cinco dos membros da comissão de impeachment estão sendo também investigados por estarem envolvidos no escândalo político. Isso inclui Paulo Maluf, que enfrenta um mandato de prisão da Interpol e não pode sair do país há anos; ele foi sentenciado na França três anos atrás por lavagem de dinheiro. Dos 65 membros do comitê de impeachment do congresso, 36atualmente enfrentam processos judiciais.

No congresso, o líder do movimento pelo impeachment, o extremista evangélico Eduardo Cunha, foi apontado como dono de múltiplas contas secretas em bancos na Suíça, onde ele guardava milhões de dólares que os promotores acreditam ser dinheiro recebido como suborno. Ele também é alvo de múltiplas investigações criminais em andamento.

Enquanto isso, o senador Aécio Neves, o líder da oposição brasileira que foi derrotado por muito pouco na eleição contra Dilma em 2014, teve pelo menos 5 denúncias diferentes de envolvimento com escândalos de corrupção. Uma das mais recentes testemunhas favoritas dos promotoresacusou-o de aceitar suborno. Essa testemunha também implicou que o vice-presidente do país, Michel Temer (PMDB), iria substituir Dilma caso ela fosse cassada.

E ainda tem o recente comportamento do juiz que está liderando a investigação de corrupção e tornou-se um herói popular por sua atuação agressiva durante as investigações de algumas das maiores e mais poderosas figuras políticas do país. O juiz, Sérgio Moro, essa semana efetivamente divulgou para a mídia uma conversa gravada, extremamente vaga, entre Dilma e Lula, o que a Globo e outras forças anti-PT imediatamente retrataram como criminosas. Moro divulgou a gravação da conversa apenas algumas horas depois de ter sido feita.


Mas a conversa gravada foi liberada pelo juíz Moro sem nenhum processo e, pior, com claras intenções políticas, não judiciais: ele estava furioso, uma vez que sua investigação sobre Lula seria finalizada pela nomeação dele ao gabinete de ministro feita por Dilma (ministros só podem ser investigados pelo Supremo Tribunal). O vazamento planejava humilhar Dilma e Lula e dar vazão para protestos nas ruas, e, no entanto, acabou recebendo críticas, inclusive de seus próprios fãs, de que estava abusando de seu poder e tornando-se uma figura política. Pior, a gravação em si parece ter sidoilegalmente obtida porque foi feita depois que o mandado que autorizada as escutas, expedido por Moro, expirou. O presidente da Ordem dos Advogados do Rio de Janeiro (OAB/RJ), Felipe Santa Cruz, chamou a ação de Moro de “um nauseante constrangimento”.

Tudo isso deixa claro o alerta e o perigo de que a investigação criminal e o processo de impeachment podem não ser exercícios legais para punir líderes criminosos, mas mais uma arma anti-democrática usada por adversários políticos para remover uma presidenta democraticamente eleita. Esse perigo ficou nitidamente em destaque ontem, quando foirevelado que um juiz que emitiu uma ordem de bloqueio a nomeação de Lula ao gabinete feita pela Dilma tinha postado mais cedo no seu Facebookinúmeras selfies dele marchando num protesto contra o governo no final de semana. Como Winter escreveu, “Convencer o público de que o judiciário brasileiro está ‘em guerra’ com o Partido dos Trabalhadores é uma tarefa mais fácil agora do que duas semanas atrás”.

Não há dúvida de que o PT é repleto de corrupção. Existem sérios indícios envolvendo o Lula que merecem ser investigados de maneira imparcial e justa. E o impeachment é um processo legítimo em uma democracia quando provado que o suspeito é culpado de vários crimes e a lei deve ser seguida claramente quando o impeachment é efetuado.

Mas o retrato emergindo no Brasil em volta do impeachment e os protestos nas ruas são bem mais complicadas, e muito mais ambíguas, do que vem sendo dito. O esforço para remover Dilma e seu partido do poder lembram mais uma clara luta anti-democrática por poder do que um movimento genuíno contra a corrupção. E pior, foi armado, projetado e alimentado por várias forças que estão enfiadas até o pescoço em escândalos políticos, e que representam os interesses dos mais ricos e mais poderosos segmentos sociais e sua frustração pela falta de habilidade em derrotar o PT democraticamente.

Em outras palavras, tudo isso parece historicamente familiar, particularmente para a América Latina, onde governos de esquerda democraticamente eleitos tem sido repetidamente removidos do poder por meios não legais ou democráticos. De muitas maneiras, o PT e Dilma não são vítimas que despertam simpatia. Grandes segmentos da população estão genuinamente irritados com ambos por várias razões legítimas. Mas os pecados deles não justificam os pecados dos seus antigos inimigos políticos, e certamente não tornam a subversão da democracia brasileira algo a ser celebrado.

Colaborou: Cecília Olliveira