sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

O outro Brasil que vem aí

Gilberto Freyre, 1926

Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
de outro Brasil que vem aí
mais tropical
mais fraternal
mais brasileiro.

O mapa desse Brasil em vez das cores dos Estados
terá as cores das produções e dos trabalhos.
Os homens desse Brasil em vez das cores das três raças
terão as cores das profissões e regiões.

As mulheres do Brasil em vez das cores boreais
terão as cores variamente tropicais.
Todo brasileiro poderá dizer: é assim que eu quero o Brasil,
todo brasileiro e não apenas o bacharel ou o doutor
o preto, o pardo, o roxo e não apenas o branco e o semibranco.

Qualquer brasileiro poderá governar esse Brasil
lenhador
lavrador
pescador
vaqueiro
marinheiro
funileiro
carpinteiro
contanto que seja digno do governo do Brasil,
que tenha olhos para ver pelo Brasil,
ouvidos para ouvir pelo Brasil,
coragem de morrer pelo Brasil,
ânimo de viver pelo Brasil,
mãos para agir pelo Brasil,
mãos de escultor que saibam lidar com o barro forte e novo dos Brasis
mãos de engenheiro que lidem com ingresias e tratores europeus e
norte-americanos a serviço do Brasil
mãos sem anéis (que os anéis não deixam o homem criar nem trabalhar).
mãos livres
mãos criadoras
mãos fraternais de todas as cores
mãos desiguais que trabalham por um Brasil sem Azeredos,
sem Irineus
sem Maurícios de Lacerda.

Sem mãos de jogadores
nem de especuladores nem de mistificadores.
Mãos todas de trabalhadores,
pretas, brancas, pardas, roxas, morenas,
de artistas
de escritores
de operários
de lavradores
de pastores
de mães criando filhos
de pais ensinando meninos
de padres benzendo afilhados
de mestres guiando aprendizes
de irmãos ajudando irmãos mais moços
de lavadeiras lavando
de pedreiros edificando
de doutores curando
de cozinheiras cozinhando
de vaqueiros tirando leite de vacas chamadas comadres dos homens.

Mãos brasileiras
brancas, morenas, pretas, pardas, roxas
tropicais
sindicais
fraternais.
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí.

Emocionado, e diante da emoção daquela multidão, não resisti e repeti o verso final:
Eu ouço as vozes
eu vejo as cores
eu sinto os passos
desse Brasil que vem aí.

domingo, 20 de janeiro de 2013

A privatização da moral pública

Por Luciano Martins Costa em 13/12/2012 na edição 724

Comentário para o programa radiofônico do OI, 13/12/2012

A impossibilidade eventual de sair batendo perna pela cidade (já que este observador se encontra temporariamente com pouca mobilidade física) abre a oportunidade para a bisbilhotagem continuada, por longas horas, das redes sociais digitais. E o que se vê, basicamente, é a construção de um abismo onde deveriam vicejar naturalmente novos vínculos sociais e onde antigos vínculos podem ser retomados e reanimados pelo encontro virtual.

Aparentemente, após três dias de imersão nas redes sociais, pode-se concluir que a imprensa brasileira está trabalhando ativamente na desconstrução do conceito de sociedade democrática.

Ao se colocar agressivamente contra determinadas figuras da República, usando critérios diferenciados para fatos similares, as principais empresas de comunicação do país estabelecem um padrão para o jornalismo sobre o qual um dia haverão de ser cobradas. Esse padrão é composto por elementos de preconceito e manipulação, mas apresentado sob o manto virtuoso da defesa da moralidade pública.

Manipulação de imagens

A palavra mágica é, como sempre, ética. O contexto, porém, é o dos tribunais de inquisição.

Dois presidentes da República. Um deles foi acusado de comprar apoio no Congresso para fazer aprovar o direito de disputar a reeleição. O outro, tendo a possibilidade de se reeleger quanto quisesse, cumpriu a lei e deixou o poder.

Para um, o olhar da imprensa é complacente. Afinal, ele estabilizou a moeda, reorganizou o sistema financeiro, atuou dentro dos paradigmas do mercado. Para o outro, a lei. Mas não apenas a lei aplicada pela Justiça: principalmente a lei do arbítrio, quando a sentença é anterior ao julgamento.

Considerem-se apropriadas todas as decisões tomadas recentemente pelo Supremo Tribunal Federal no caso chamado de mensalão. Ainda assim, nada justifica a sanha da imprensa, em ataques pessoais, a não ser um ódio que precede o caso em si.

Ao abandonar a linguagem jornalística apropriada para adotar o discurso político, a imprensa induz boa parte da sociedade a adotar retórica semelhante, com o que, então, se dá adeus à racionalidade. Um dos resultados pode ser a ruptura do tecido social.

Mas há uma ironia nessa história: observando-se manifestações nas redes sociais, parece que a parcela de opiniões críticas sobre esse desempenho da imprensa cresce mais do que aquela parcela que compartilha as opiniões do noticiário editorializado.

O tema está a merecer uma pesquisa de comunicadores, mas pode-se afirmar que o campo político onde se situam aqueles que discordam da imprensa se transformou em terreno minado onde nunca mais haverão de brotar assinaturas desses jornais e revistas – e onde a publicidade veiculada nessas mídias tende a produzir efeito negativo para os anunciantes.

São decisões editoriais que comprometem o futuro da mídia tradicional, e o principal erro da imprensa tem sido quanto ao uso de seu suposto poder de influenciar pessoas: não é de hoje que pesquisadores como o britânico Paul Johnson (católico e conservador) observam que a manipulação de imagens em favor de interpretações preconcebidas, antes um vício da televisão, acabou dominando a mídia impressa.

Processo em curso

Há mais de dez anos, Johnson já dizia que os pecados típicos da imprensa tradicional quando ela começou a se apropriar das tecnologias digitais de informação e comunicação eram preconceito, manipulação, precipitação e editorialização.

A observação da imprensa brasileira faz lembrar uma das frases mais emblemáticas criadas por Paul Johnson nesse período: “A mídia é uma arma carregada quando utilizada com hostilidade”.

Hostilidade e agressividade são as palavras centrais para descrever o conteúdo jornalístico que tem sido oferecido aos leitores e telespectadores nos últimos anos, no seu esforço desenfreado e irracional para criar e aprofundar uma divisão na sociedade brasileira.

Preconceito, manipulação, precipitação e editorialização são expressões que ficam mal dissimuladas sob o discurso moralizante que domina a linguagem jornalística.

A denúncia dos maus procedimentos, a fiscalização dos poderes, o papel essencial da imprensa de organizar a agenda pública para manter em evidência os valores fundamentais da vida republicana, implicam equilíbrio e algum compromisso com a busca da verdade.

O que se vê, claramente, é o uso político de informações fora de contexto, em nome da ética. Não se trata, nesse sentido, de ética propriamente, mas de moralidade, expressão definida especificamente na Constituição brasileira. Trata-se, claramente, de um processo de privatização da moralidade pública.